segunda-feira, 31 de maio de 2010

Medo de Sonhar de novo - 6ª parte

No dia seguinte, acordei com uma ressaca daquelas. Tentei recordar-me das coisas que haviam acontecido na noite anterior, e rapidamente olhei para o outro lado da minha cama... O menino encantador, que nem me preocupei em perguntar o nome!!! Por surpresa, e frustração, ele não estava lá. Em seu lugar, uma flor que eu sabia ter sido retirada do mini-jardim que eu tinha em minha janela, e um bilhete, carinhoso, que dizia:

“Linda bebedora de “maçã selvagem”: Espero que o sono dominante tenha lhe recobrado o juízo e a memória, e que as conseqüências não sejam tão dolorosas.
Assim que acordar, me ligue, para dizer que está bem.
9995-7736 – Ricardo
Ps: Dormindo, você fica angelicamente mais bonita.”

Ricardo... Aquele era o nome do meu “anjo da guarda”... Tudo bem que àquela altura, eu não tinha a mínima idéia se ele foi meu anjo ou meu carrasco. E meu lado maquiavélico torcia para que ele fosse o carrasco. E então, me verifiquei por inteiro para procurar algum vestígio da noite anterior. Fora a ressaca, nada demais. Nenhum abuso, nenhum hematoma. “Droga!”, pensei por um momento, mas depois me adverti pelo pensamento... Que loucura! O que eu queria? Que eu tivesse sido estuprada?

Levantei, finalmente, depois de duas ou três tentativas sem sucesso. Passei cinco minutos sentada à beira da cama, juntando forças para completar o processo. Assim que consegui permanecer ereta, fui à caça do meu telefone, para ligar. Ligar, ou esperar? Eis a questão... Claro que ligar, né cabeça! – pensei comigo mesma – afinal de contas, ele nunca vai ligar se você não deu seu telefone.

...

Esses eram apenas os primeiros acontecimentos da pior fase da minha vida, mas desses momentos eu gostava de lembrar. Pena que era tão doloroso continuar pensando. E talvez por isso essa época tenha sido totalmente apagada da minha mente. Ou, pelo menos, eu pensava que estava apagada, pois foi só aquela ligação acontecer, e tudo voltou a flamejar na minha mente, como lava expulsa do olho do vulcão.

Acabei me dispersando em meus pensamentos e o banho durou muito mais do que vinte minutos... Não sabia mais o que era água e o que era lágrima, que rolava sobre meu rosto. A cena ali desenhada era assustadoramente perturbador. Imaginem uma mulher de trinta anos estatelada no banheiro, tomando banho por horas, sem ter nenhuma reação humana. Nada se movia, eu era uma inércia de movimentos e de reações. Um estado de choque que tomou conta do meu corpo, por reviver aquelas cenas que um dia foram esquecidas. A água quente ainda rolava pelo meu corpo, e pelo chão, enquanto as imagens do passado eram revividas em outro plano mental.

...

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