"Bem vinda ao inferno", rosnou Ricardo ao meu ouvido. "Sinta-se hornada por conhecer pessoalmente o criador dos seus pesadelos e pecados... Tenha o prazer ou desprazer, como queira... De conhecer a mim". Eu realmente acreditei de estar conhecendo Lúcifer.
Cada palavra pronunciada causava tormentas de arrepios na minha espinha, que se espalhava rapidamente pelo resto do meu corpo. O que ele iria fazer, o que eu tinha feito para que ele fizesse isso comigo? Nenhuma das minhas perguntas poderia ser respondida, até porque, eu não tinha condições de pronunciá-las, devido ao medo, e aos sentidos entorpecidos que eu consegui com toda aquela mistura de sentimentos. Parecia que eu tinha sido drogada. E não duvido muito que realmente tenha sido, num dos momentos de descuido ou que a minha memória ainda não tivesse capturado.
-Ricardo (balbuciei como uma criança aprendendo a falar), Por quê? O que eu te fiz?
-Nada meu bem, absolutamente nada! Quem está fazendo alguma coisa aqui sou eu...
Enquanto falava, Ricardo não expressava nenhum sentimento, nada! Acariciava meu rosto sorrindo, mas os olhos estavam opacos, sem nenhuma vida. E logo depois da carícia, um tapa ardeu como fogo nas minhas bochechas. E em seguida o trovão:
-Mas se você quiser continuar falando, eu posso ficar um pouco irritado... É isso o que você quer?
-Não - murmurei.
-Então, minha linda, cale a merda da sua boca!
E eu me calei, enquanto sentia o ardor do tapa que recebera, gritando por dentro com a dor, mas meu corpo apenas respondia com mais algumas lágrimas, que ainda brotavam, quando eu achava que não era mais capaz de produzir uma.
Acho que fiquei umas cinco horas em silêncio quase que absoluto, a não ser pelos meus soluços, enquanto Ricardo via tv, ou comia, ou ia ao banheiro, ou fazia qualquer outra atividade. Até que eu tentei de novo:
-Ricardo?
-Eu acho que mandei você ficar quieta, não mandei??
-E quando derem por minha falta?
-Você acha sinceramente que alguém vai dar por sua falta, meu bem? Não seja tão prepotente assim...
-Mas e minha mãe?
-Você quer realmente sustentar essa conversa, sua vagabundinha? Ok, a sua mãe não vai dar por sua falta por um simples motivo: eu disse que você ia passar alguns dias comigo, para aproveitar a... reconciliação - e um risinho sarcástico saiu do canto da sua boca.
-E a faculdade? Você acha que as meninas não vão dar por mim?
-Jessi, meu amor... Vamos relembrar os fatos: um de nós dois é considerado não tão normal, depois de certas atitudes suspeitas nos últimos meses. E adivinha? Essa pessoa não sou eu. Então, o que te faz pensar que elas não achem que você teve outro surto ou coisa do tipo? Não se esqueça nunca, meu bem, que a tarja preta é sua!
-Você me dá nojo!
-Ha-ha-ha... Engraçado, não era isso que você gritava, quando agia como uma putinha, gritando na cama, enquanto eu fazia o favor em te comer. Aliás, acho que você anda dormindo de calças ultimamente... Está precisando de um homem, está? Anda, fala, sua cachorra!
-Não, Ricardo, não!!!
-Eu acho que está, vem cá, sua vadia!
-Para, para...
Os gritos cessaram quando fui amordaçada. ainda amarrada, Ricardo tirou a minha roupa e me estuprou várias vezes, até que a sua ira tivesse passado. Eu me recordo até a terceira vez, quando desmaiei, fraca, sem comida, cansada e sem dormir. Achei que ali eu teria o sono dos justos, e que nunca mais fosse acordar... Mas acordei.
Sentia uma ardência insana por entre as minhas pernas. Olhei para o meu corpo e vi as marcas das agressões, além de sangue. Procurei ver de onde vinha, mas não conseguia encontrar com exatidão, só pude concluir que saia da minha parte genital. A visão ainda era meio turva, mas também consegui distinguir alguns pedaços de vidro em volta. Duvidei por um instante se era realmente meu sangue, mas não tinha como não ser... Ele ainda pingava pelo chão, e partia de mim.
...
Enquanto dormia, via claramente as imagens desse passado traumatizante em meus sonhos. No plano real, o psiquiatra e minha mãe tentavam controlar um ataque epilético que eu tinha, enquanto a febre não baixava. compressas de água fria estavam ao lado da minha cama, e meus movimentos bruscos derrubaram a bacia com água e gelo no chão.
---
Tentei recuperar as minhas forças, lembrei como odiava ver sangue, e quase desmaiei novamente. Foquei meus pensamentos em coisas racionais, e algumas fantasiosas, para refugiar a minha mente, quando dava conta das coisas que estavam acontecendo ao meu redor. Ricardo estava dormindo no sofá, mas eu sabia que qualquer movimento que eu tivesse o acordaria.
Pensei então se seria possível eu ter acesso a algum daqueles cacos. Talvez eu pudesse realizar uma daquelas façanhas de filme, e cortar a corda que amarrava os meus pulsos. Mas como eu faria isso sem despertar a besta adormecida no sofá?
Olhei tentando fixar a vista na direção de Ricardo e vi algo que já era de se esperar. Havia uma seringa em cima da mesa de centro, e algumas ampolas, que com certeza eram drogas injetáveis... Qual eu não sei, mas... Se ele está drogado, pensei comigo mesma, ele não vai acordar se eu fizer um pouco de barulho. Resolvi testar, gemi um pouco e o corpo dele estava inerte. Um pouco mais alto e nada. Então movimentei a cadeira, para que eu caísse com a cadeira de lado. Um, dois, três... E o susto.
Quase não aguentei suportar o grito na garganta. O som saiu como um urro abafado, como se tivesse entrado, ao invés de sair. Não sabia ao certo se eu tinha quebrado o braço ou deslocado o ombro, mas sabia que a dor era enorme. Respirei fundo e chorei, como um bebê... Por um momento esqueci que o monstro repousava sua "onda" a alguns metros de mim. Recuperei as minhas forças e tentei mexer o braço. Outra onda de dor, e agora o grito foi quase gutural. Eu suava frio, o meu corpo tremia, e eu sentia que perderia a consciência de novo...
Acordei com o rosto do monstro encarando o meu, esperando que eu despertasse para tentar entender o que eu tentara fazer enquanto a aberração dormia. Por um momento, tive um flash de como era engraçado ver que do príncipe encantado eu vi nascer o bicho-papão. E ainda não tendo certeza da dor que eu sentia, eu ri para aquele rosto que por momentos foi encantador para mim. Meu sorriso sumiu quando vi reluzir o meu sorriso nos olhos daquela criatura, e dei por mim do que estava acontecendo.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Ninguém é perfeito... Eu não sou, você também não!
Nem sempre depois de toda tempestade, vem a calmaria, a bonança. Ou você acha muito calmo retirar escombros de cima de seus entes queridos, como aconteceu no Haiti? Você acha ser bonança esperar pelas doações de desconhecidos, depois da enchente que tivemos no Rio de Janeiro, no início do ano de 2010?
Nem sempre, depois daqueles momentos em que a raiva predomina, teremos amor pra dar. Fato, ciência e verdade.
Acho todos esses ditados populares muito bonitos, mas sempre hipócritas. Olha bem... Muitas pessoas pregam o auto-controle, a benevolência, a paz de espírito, a tolerância. Você os pratica? Você se considera forte o suficiente para não corresponder a uma pedrada, todas as vezes que lhe dão uma?
Atirem a primeira pedra quem é santo... Opa, desculpem-me! Se você é santo, não atirará pedras mesmo ao pittbull que lhe dilacera a perna. Você terá de ser o mais calmo do mundo para reverter a situação... Claro, QUANDO A SUA PERNA JÁ ESTIVER FORA DO CORPO!!!
Percebeu? Nem sempre as coisas funcionam como esperado. Concordou? Gente, eu que sou uma calma criatura estou sucetível a erros, a desesperos, a estar fora de controle... E sabe por quê??? Porque eu sou humana, e como tal, sofro de todos os males terrenos. E acredite, você não veio de Atlanta, de Vênus, Plutão... Orion. Não, você está tão perdoado quanto eu de não ser Buda ou Ghandi. Prestou atenção? Você não é JESUS CRISTO! E nem eu...
E para chegarem a ser tais celebridades da existência humana, eles com certeza erraram, e buscaram corrigir seus erros. Isso sim, é ser benevolente, é ser correto.
Vamos lá, não estou dizendo que não é para buscarmos a melhoria existencial e espiritual. O certo é evoluirmos enquanto seres humanos. É buscarmos corrigir nossos erros, é tentar ser melhor do que já fomos há dois segundos. Mas também não estaremos subjulgados e condenados ao inferno se por algum acaso vivenciarmos o pecado da ira.
A intenção aqui é dizer: sinta raiva, porque assim como sentir o amor, é a prova do "estar vivo". Agredir? Você um dia vai ferir alguém, é inevitável! Se já não feriu, mesmo sem querer. Fique triste! A tristeza faz com que a gente valorize os menores momentos de alegria. Erre, porque quem não erra, não tem a capacidade de distinguir o que é certo e o que é errado (e não é humano também). E corrija-os sempre que possível.
A questão é: viva, seja esse ser humano que você é! Aprenda tudo o que puder com a vida que lhe toma. Perca as rédeas de vez em quando, mas saiba retomá-las mais tarde. E não leve todos os conselhos dos arquivos pps. que você recebe por e-mail tão a sério. Seus bisavós e tartaravós não tiveram essas advertências e viveram tão bem ou melhores que nós. E o seu destino vai ser o mesmo do deles - você não vai sair vivo daqui mesmo...
E para fechar com chave de ouro, vou tratar de um arquivo de pps. que me comoveu de verdade. O título é "Te desejo o suficiente". Procure-o na net, e você vai entender!
Nem sempre, depois daqueles momentos em que a raiva predomina, teremos amor pra dar. Fato, ciência e verdade.
Acho todos esses ditados populares muito bonitos, mas sempre hipócritas. Olha bem... Muitas pessoas pregam o auto-controle, a benevolência, a paz de espírito, a tolerância. Você os pratica? Você se considera forte o suficiente para não corresponder a uma pedrada, todas as vezes que lhe dão uma?
Atirem a primeira pedra quem é santo... Opa, desculpem-me! Se você é santo, não atirará pedras mesmo ao pittbull que lhe dilacera a perna. Você terá de ser o mais calmo do mundo para reverter a situação... Claro, QUANDO A SUA PERNA JÁ ESTIVER FORA DO CORPO!!!
Percebeu? Nem sempre as coisas funcionam como esperado. Concordou? Gente, eu que sou uma calma criatura estou sucetível a erros, a desesperos, a estar fora de controle... E sabe por quê??? Porque eu sou humana, e como tal, sofro de todos os males terrenos. E acredite, você não veio de Atlanta, de Vênus, Plutão... Orion. Não, você está tão perdoado quanto eu de não ser Buda ou Ghandi. Prestou atenção? Você não é JESUS CRISTO! E nem eu...
E para chegarem a ser tais celebridades da existência humana, eles com certeza erraram, e buscaram corrigir seus erros. Isso sim, é ser benevolente, é ser correto.
Vamos lá, não estou dizendo que não é para buscarmos a melhoria existencial e espiritual. O certo é evoluirmos enquanto seres humanos. É buscarmos corrigir nossos erros, é tentar ser melhor do que já fomos há dois segundos. Mas também não estaremos subjulgados e condenados ao inferno se por algum acaso vivenciarmos o pecado da ira.
A intenção aqui é dizer: sinta raiva, porque assim como sentir o amor, é a prova do "estar vivo". Agredir? Você um dia vai ferir alguém, é inevitável! Se já não feriu, mesmo sem querer. Fique triste! A tristeza faz com que a gente valorize os menores momentos de alegria. Erre, porque quem não erra, não tem a capacidade de distinguir o que é certo e o que é errado (e não é humano também). E corrija-os sempre que possível.
A questão é: viva, seja esse ser humano que você é! Aprenda tudo o que puder com a vida que lhe toma. Perca as rédeas de vez em quando, mas saiba retomá-las mais tarde. E não leve todos os conselhos dos arquivos pps. que você recebe por e-mail tão a sério. Seus bisavós e tartaravós não tiveram essas advertências e viveram tão bem ou melhores que nós. E o seu destino vai ser o mesmo do deles - você não vai sair vivo daqui mesmo...
E para fechar com chave de ouro, vou tratar de um arquivo de pps. que me comoveu de verdade. O título é "Te desejo o suficiente". Procure-o na net, e você vai entender!
domingo, 15 de agosto de 2010
Medo de sonhar de novo - 18ª parte
Não conseguia entender ou acreditar no que estava acontecendo ali. Aquela cena era completamente bizarra! Como uma coisa que aconteceu em pouco tempo poderia apagar da memória de alguém, daquela forma? Não sabia até onde as palavras de Ricardo me soavam como verdade ou mentira. E analisava minuciosamente cada sinal de expressão que pudesse responder a minha dúvida. Porém, nada.
Tudo era muito vazio. Tudo era nada. A minha angústia aumentava cada vez mais. Sabia que eu não estava em meu estado natural, e tinha medo de como a panela iria transbordar. Ponderava cada reação que eu pudesse ter. Toda a minha confusão estava mesclada ao medo, e qualquer coisa que eu pudesse fazer me remetia às cenas de agressão do dia anterior... E se ele pirasse de novo? E se fosse pior. Mas eu não poderia me omitir, eu não poderia me deixar levar por toda aquela coação, indução, ou sei lá o que era aquilo.
Meus pensamentos foram interrompidos por um rompante de choro. O que estava acontecendo? Será que não era eu a louca da relação, mas sim ele? Não havia ponderado essa opção antes.
Ricardo chorava compulsivamente. Me lembrava um bebê chorando de fome. Soluçava, desesperava, tentava se esconder, para não passar pela situação constrangedora de admitir uma possível fraqueza, que homem também chora. Ele me pedia desculpas, me tocava, me abraçava tentando esconder o rosto por detrás dos meus ombros. Eu perguntei o que estava acontecendo, se ele estava com problemas externos, se estava acontecendo alguma coisa que eu não soubesse, e ele não respondia. Apenas chorava e chorava, e pedia desculpas.
Atinei para a hipótese de realmente estar acontecendo alguma coisa. Uma coisa que eu havia aprendido era que homem, quando está se desculpando muito, quando mudava seu comportamento, era porque realmente estava acontecendo alguma coisa. Atentei para a possibilidade de traição. Mas fiquei na minha. Continuei perguntando o que estava acontecendo, e fui surpreendida mais uma vez.
Ricardo começou a gritar, desesperadamente, praguejando o vento, perguntando para mim o que eu queria dele, se eu não conseguia enxergar. Enxergar o que? A loucura dele? É, eu estava percebendo... Mas a minha expressão causou uma crise de fúria nele, e de repente um tapa ardeu na minha face, e o gosto de sangue repercurtiu em minha boca.
...
Cerrei meus olhos e me juntei ao sofá. "Hein, tá me olhando assim por quê?" Era o que eu conseguia distinguir dentro da dor. Ricardo me pegou e me chacoalhou como se eu fosse um boneco de pano. Me chamava de louca, de puta, retardada. Brilhava em seus olhos algo que eu não sabia explicar. Eu tentava me debater, mas não sabia de onde saia aquela força dele, que me apertava tão fortemente, e não me dava espaço para me desvencilhar. Eu pedia para ele parar, mas ali, com aquele olhar, eu sabia que não era ele no seu estado normal.
"O que é? Fica me olhando assim com essa cara... Tá imaginando que eu ou louco né? Mal sabe que a louca aqui é você... Vamos relembrar os fatos: Quem ficou sem vida social? Onde você estava nos últimos mêses? Quem é você sem mim?"
As minhas forças tinham acabado, e eu não esboçava mais reação corporal. A única válvula de escape eram as lágrimas. Então, facilmente Ricardo me colocou numa das cadeiras do conjunto da mesa de jantar e me mandou ficar. Me ameaçou de morte se eu me movesse mais do que a respiração me permitia. E com o medo tomando conta de mim, além das forças perdidas, eu não tinha outras opção além de obedecer.
Ricardo sumiu em um dos cômodos da casa rapidamente e retornou mais rápido ainda, com uma corda. Me amarrou naquela cadeira e eu já não me importava com as coisas que estavam acontecendo, só queria sumir dali, desejava nunca ter pensado em aparecer na casa dele, naquele dia.
Tudo era muito vazio. Tudo era nada. A minha angústia aumentava cada vez mais. Sabia que eu não estava em meu estado natural, e tinha medo de como a panela iria transbordar. Ponderava cada reação que eu pudesse ter. Toda a minha confusão estava mesclada ao medo, e qualquer coisa que eu pudesse fazer me remetia às cenas de agressão do dia anterior... E se ele pirasse de novo? E se fosse pior. Mas eu não poderia me omitir, eu não poderia me deixar levar por toda aquela coação, indução, ou sei lá o que era aquilo.
Meus pensamentos foram interrompidos por um rompante de choro. O que estava acontecendo? Será que não era eu a louca da relação, mas sim ele? Não havia ponderado essa opção antes.
Ricardo chorava compulsivamente. Me lembrava um bebê chorando de fome. Soluçava, desesperava, tentava se esconder, para não passar pela situação constrangedora de admitir uma possível fraqueza, que homem também chora. Ele me pedia desculpas, me tocava, me abraçava tentando esconder o rosto por detrás dos meus ombros. Eu perguntei o que estava acontecendo, se ele estava com problemas externos, se estava acontecendo alguma coisa que eu não soubesse, e ele não respondia. Apenas chorava e chorava, e pedia desculpas.
Atinei para a hipótese de realmente estar acontecendo alguma coisa. Uma coisa que eu havia aprendido era que homem, quando está se desculpando muito, quando mudava seu comportamento, era porque realmente estava acontecendo alguma coisa. Atentei para a possibilidade de traição. Mas fiquei na minha. Continuei perguntando o que estava acontecendo, e fui surpreendida mais uma vez.
Ricardo começou a gritar, desesperadamente, praguejando o vento, perguntando para mim o que eu queria dele, se eu não conseguia enxergar. Enxergar o que? A loucura dele? É, eu estava percebendo... Mas a minha expressão causou uma crise de fúria nele, e de repente um tapa ardeu na minha face, e o gosto de sangue repercurtiu em minha boca.
...
Cerrei meus olhos e me juntei ao sofá. "Hein, tá me olhando assim por quê?" Era o que eu conseguia distinguir dentro da dor. Ricardo me pegou e me chacoalhou como se eu fosse um boneco de pano. Me chamava de louca, de puta, retardada. Brilhava em seus olhos algo que eu não sabia explicar. Eu tentava me debater, mas não sabia de onde saia aquela força dele, que me apertava tão fortemente, e não me dava espaço para me desvencilhar. Eu pedia para ele parar, mas ali, com aquele olhar, eu sabia que não era ele no seu estado normal.
"O que é? Fica me olhando assim com essa cara... Tá imaginando que eu ou louco né? Mal sabe que a louca aqui é você... Vamos relembrar os fatos: Quem ficou sem vida social? Onde você estava nos últimos mêses? Quem é você sem mim?"
As minhas forças tinham acabado, e eu não esboçava mais reação corporal. A única válvula de escape eram as lágrimas. Então, facilmente Ricardo me colocou numa das cadeiras do conjunto da mesa de jantar e me mandou ficar. Me ameaçou de morte se eu me movesse mais do que a respiração me permitia. E com o medo tomando conta de mim, além das forças perdidas, eu não tinha outras opção além de obedecer.
Ricardo sumiu em um dos cômodos da casa rapidamente e retornou mais rápido ainda, com uma corda. Me amarrou naquela cadeira e eu já não me importava com as coisas que estavam acontecendo, só queria sumir dali, desejava nunca ter pensado em aparecer na casa dele, naquele dia.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Medo de sonhar de novo - 17ª parte
- Aonde você vai?
- O que?
- Aonde é que você tá indo (Ricado segurou meu braço com uma força desnecessária
- Ricardo, solta o meu braço agora!
- Não... Eu quero saber primeiro!
- Para com isso, seu louco! Ta me machucando... - Fiz força para tentar me desvencilhar das mãos que me apertavam em um quase estrangulamento. – O que deu em você? Bebeu?
- Não, eu não bebi... Pelo contrário, estou suficientemente sóbrio pra querer satisfação de onde a minha mulher está indo a essa hora...
- Hahahaha (dei uma risada irônica muito pouco convincente... Na verdade, estava com medo daquela situação), e você por acaso tem o documento, a minha escritura, declaração de posse? Até onde eu sei, nem aliança no dedo eu tenho!
- E desde quando isso significa alguma coisa pra você? O que me interessa é o que eu sei, e não o que eu tenho que provar para os outros, fora da relação. Mas se é isso que você acha... tudo bem, vai.
Ricardo, nesse momento, estava aos berros comigo. Aquela fúria repentina pelo simples fato de me ver um pouco mais arrumada fez com que se mostrasse uma personalidade que até então eu não conhecia. Onde tinha ficado aquela criatura pacata que esteve comigo durante todo aquele tempo? Uma pessoa normal não conseguiria fingir ou esconder esse lado por tanto tempo. E é aqui que eu me atentei pela primeira vez sobre as estranhezas de comportamento dele.
Além de todas as coisas que ele fazia e eu não percebia, como me controlar, de uma forma tão doce que eu não sentia o que estava acontecendo, ou quando fazia charme para conseguir o que queria. As coisas eram milimetricamente desenhadas por ele, enquanto eu era dopada mentalmente, com doces gestos de carinho. E então, um estalo: justamente quando me neguei a fazer as coisas que ele queria, enquanto ele pedia de forma doce, fiz aparecer um mostro que se escondia sob a pele de cordeiro.
No dia seguinte, podia ver as marcas da discussão do dia anterior. Os hematomas variavam dos tons vinho ao roxo-esverdeado, acompanhados de uma dor incômoda. Retomei todos os passos dados no dia anterior, e cada vez mais ficava mais assustada com o que havia acontecido. Peguei meu celular e nada mais, nada menos do que vinte e cinco mensagens dele ocupavam a minha caixa de entrada, com pedidos de desculpas, juras de amor e “te amo” proclamados em cada uma delas, como se aquelas palavras quisessem gritar. Como se fossem uma tentativa de lavagem cerebral, com repetições... Assim como acontece nos comerciais.
Na paranóia de não saber o que fazer, no conflito que se passava pela minha mente, eu me olhava e sentia uma grande aversão, que contrastava com o sentimento que nutri até ali. Aquele sentimento que demorou tanto tempo para ser recontruídos. Meu olhar procurava algum ponto de foco, mas era evasivo e vazio. Ainda assim, eu topei conversar com ele, depois de tudo o que havia acontecido.
Não contei para ninguém o que houve no dia anterior e bem, as marcas eram fáceis de serem escondidas, com roupas mais compridas e maquiagem. Assim o fiz e fui em frente, sem que ninguém pudesse desconfiar de qualquer mal agouro. E fui para a casa de Ricardo. E me encaminhei ao que deveria ser um pesadelo.
Toquei a campainha duas ou três vezes, ansiosa pela recepção. Não sabia se aquilo seria bom ou ruim, e essa expectativa me torturava internamente. Achei que Ricardo deveria estar dormindo, ou muito ocupado com alguma coisa que não o deixava me atender. Pensei em abrir a porta, pois presumia ter intimidade suficiente para fazê-lo, mas... Ponderei os últimos fatos e percebi que na verdade eu não era íntima de ninguém, que pouco conhecia aquela pessoa com quem passei um bom tempo.
Mais alguns instantes, e ele surgiu na minha frente, com um aspecto sujo e cansado, mas tentando se recompor, tentando se limpar ao máximo, para poder ter contato. Mas pensou melhor e apenas me pediu para entrar e ficar à vontade. Me adiantou que iria tomar banho, para ficar um pouco mais apresentável. Ligou a televisão, e sumiu pelo corredor da casa, até o banheiro de seu quarto.
Meus olhos procuravam por evidências que me mostrassem alguma intenção, alguma coisa que me esclarecesse o que estava por vir, o que estava acontecendo... A falha que insistia em se preservar na minha mente, o que eu poderia lembrar e esquecer da noite anterior. É, seria imprudência minha não contar a ninguém. Mais ainda retornar ao ponto de onde aquele pesadelo começara.
...
Hoje eu fui visitar o Dr. Maurício. Ele foi o meu psiquiatra há algum tempo, não sei bem ao certo quanto. Ele foi o responsável pela minha volta à normalidade, depois de tantas coisas terem acontecido. Depois do tratamento terminado, Dr. Maurício me disse que qualquer sintoma de desequilíbrio, ou qualquer lembrança que perturbasse a minha suposta cura deveriam ser relatados.
Assim o fiz. Liguei para ele, dizendo que eu precisava conversar com ele, pois não estava em meu estado normal. Antecipei alguns dos mais recentes acontecimentos, e então, ele marcou uma consulta de urgência. Dr. Maurício sabia que qualquer leve recaída me traria traumas muito difíceis de reverter.
...
Ricardo saiu do banho, se arrumou e veio de encontro a mim, na sala. Perguntou se eu queria alguma coisa, e me acarinhava como normalmente. Até que ele passou a mão pelo meu braço, na parte em que as escoliações ainda doíam. Fiz uma contração involuntária, e ele estranhou. Perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu fiz que não era nada demais. Então ele passou a mão novamente, e mais uma vez, uma recusa de toque. Ricardo não se conteve e pediu para ver o que tinha em meu braço. Eu fiz que não, mas ele insistiu.
Ricardo olhava, pasmado com as manchas roxas, o meu braço. Parecia um tanto confuso e me perguntou o que havia acontecido comigo. Eu o olhava, incrédula. Perguntei se ele não tinha ideia, e ele disse que não. Fitei o rosto de Ricardo e ele não esboçava nenhuma reação, nenhum semblante de culpa, de dor, de arrependimento, nem nada. Então o questionei sobre as mensagens, e ele nem soube me responder. Disse que estava embriagado, e que me mandou mensagens porque não queria me fazer sofrer novamente, como há alguns meses. Agora, quem estava embasbacada era eu.
...
- O que?
- Aonde é que você tá indo (Ricado segurou meu braço com uma força desnecessária
- Ricardo, solta o meu braço agora!
- Não... Eu quero saber primeiro!
- Para com isso, seu louco! Ta me machucando... - Fiz força para tentar me desvencilhar das mãos que me apertavam em um quase estrangulamento. – O que deu em você? Bebeu?
- Não, eu não bebi... Pelo contrário, estou suficientemente sóbrio pra querer satisfação de onde a minha mulher está indo a essa hora...
- Hahahaha (dei uma risada irônica muito pouco convincente... Na verdade, estava com medo daquela situação), e você por acaso tem o documento, a minha escritura, declaração de posse? Até onde eu sei, nem aliança no dedo eu tenho!
- E desde quando isso significa alguma coisa pra você? O que me interessa é o que eu sei, e não o que eu tenho que provar para os outros, fora da relação. Mas se é isso que você acha... tudo bem, vai.
Ricardo, nesse momento, estava aos berros comigo. Aquela fúria repentina pelo simples fato de me ver um pouco mais arrumada fez com que se mostrasse uma personalidade que até então eu não conhecia. Onde tinha ficado aquela criatura pacata que esteve comigo durante todo aquele tempo? Uma pessoa normal não conseguiria fingir ou esconder esse lado por tanto tempo. E é aqui que eu me atentei pela primeira vez sobre as estranhezas de comportamento dele.
Além de todas as coisas que ele fazia e eu não percebia, como me controlar, de uma forma tão doce que eu não sentia o que estava acontecendo, ou quando fazia charme para conseguir o que queria. As coisas eram milimetricamente desenhadas por ele, enquanto eu era dopada mentalmente, com doces gestos de carinho. E então, um estalo: justamente quando me neguei a fazer as coisas que ele queria, enquanto ele pedia de forma doce, fiz aparecer um mostro que se escondia sob a pele de cordeiro.
No dia seguinte, podia ver as marcas da discussão do dia anterior. Os hematomas variavam dos tons vinho ao roxo-esverdeado, acompanhados de uma dor incômoda. Retomei todos os passos dados no dia anterior, e cada vez mais ficava mais assustada com o que havia acontecido. Peguei meu celular e nada mais, nada menos do que vinte e cinco mensagens dele ocupavam a minha caixa de entrada, com pedidos de desculpas, juras de amor e “te amo” proclamados em cada uma delas, como se aquelas palavras quisessem gritar. Como se fossem uma tentativa de lavagem cerebral, com repetições... Assim como acontece nos comerciais.
Na paranóia de não saber o que fazer, no conflito que se passava pela minha mente, eu me olhava e sentia uma grande aversão, que contrastava com o sentimento que nutri até ali. Aquele sentimento que demorou tanto tempo para ser recontruídos. Meu olhar procurava algum ponto de foco, mas era evasivo e vazio. Ainda assim, eu topei conversar com ele, depois de tudo o que havia acontecido.
Não contei para ninguém o que houve no dia anterior e bem, as marcas eram fáceis de serem escondidas, com roupas mais compridas e maquiagem. Assim o fiz e fui em frente, sem que ninguém pudesse desconfiar de qualquer mal agouro. E fui para a casa de Ricardo. E me encaminhei ao que deveria ser um pesadelo.
Toquei a campainha duas ou três vezes, ansiosa pela recepção. Não sabia se aquilo seria bom ou ruim, e essa expectativa me torturava internamente. Achei que Ricardo deveria estar dormindo, ou muito ocupado com alguma coisa que não o deixava me atender. Pensei em abrir a porta, pois presumia ter intimidade suficiente para fazê-lo, mas... Ponderei os últimos fatos e percebi que na verdade eu não era íntima de ninguém, que pouco conhecia aquela pessoa com quem passei um bom tempo.
Mais alguns instantes, e ele surgiu na minha frente, com um aspecto sujo e cansado, mas tentando se recompor, tentando se limpar ao máximo, para poder ter contato. Mas pensou melhor e apenas me pediu para entrar e ficar à vontade. Me adiantou que iria tomar banho, para ficar um pouco mais apresentável. Ligou a televisão, e sumiu pelo corredor da casa, até o banheiro de seu quarto.
Meus olhos procuravam por evidências que me mostrassem alguma intenção, alguma coisa que me esclarecesse o que estava por vir, o que estava acontecendo... A falha que insistia em se preservar na minha mente, o que eu poderia lembrar e esquecer da noite anterior. É, seria imprudência minha não contar a ninguém. Mais ainda retornar ao ponto de onde aquele pesadelo começara.
...
Hoje eu fui visitar o Dr. Maurício. Ele foi o meu psiquiatra há algum tempo, não sei bem ao certo quanto. Ele foi o responsável pela minha volta à normalidade, depois de tantas coisas terem acontecido. Depois do tratamento terminado, Dr. Maurício me disse que qualquer sintoma de desequilíbrio, ou qualquer lembrança que perturbasse a minha suposta cura deveriam ser relatados.
Assim o fiz. Liguei para ele, dizendo que eu precisava conversar com ele, pois não estava em meu estado normal. Antecipei alguns dos mais recentes acontecimentos, e então, ele marcou uma consulta de urgência. Dr. Maurício sabia que qualquer leve recaída me traria traumas muito difíceis de reverter.
...
Ricardo saiu do banho, se arrumou e veio de encontro a mim, na sala. Perguntou se eu queria alguma coisa, e me acarinhava como normalmente. Até que ele passou a mão pelo meu braço, na parte em que as escoliações ainda doíam. Fiz uma contração involuntária, e ele estranhou. Perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu fiz que não era nada demais. Então ele passou a mão novamente, e mais uma vez, uma recusa de toque. Ricardo não se conteve e pediu para ver o que tinha em meu braço. Eu fiz que não, mas ele insistiu.
Ricardo olhava, pasmado com as manchas roxas, o meu braço. Parecia um tanto confuso e me perguntou o que havia acontecido comigo. Eu o olhava, incrédula. Perguntei se ele não tinha ideia, e ele disse que não. Fitei o rosto de Ricardo e ele não esboçava nenhuma reação, nenhum semblante de culpa, de dor, de arrependimento, nem nada. Então o questionei sobre as mensagens, e ele nem soube me responder. Disse que estava embriagado, e que me mandou mensagens porque não queria me fazer sofrer novamente, como há alguns meses. Agora, quem estava embasbacada era eu.
...
sábado, 7 de agosto de 2010
Última ferida
Estou sentindo
"O pulso ainda pulsa"
Ainda sinto correr o sangue dentro de mim...
Tum tum...
Tum tum...
Tum tum...
É, ele ainda está batendo!
Está inteiro? Sim, está! Mas não intacto...
Avalio as últimas escoliações e... Nossa!
O trauma foi grande dessa vez! Dilacerado? Não, mas consigo ver o outro lado.
Ele vai sobreviver... Achei que não, mas vai!
A recuperação é lenta, e veja! A ferida o atravessou!
Atingiu um órgão vital... O coração. Mas ele ainda bate.
Estou me recuperando... Quanto tempo passou? Uns três meses?
- "Não, oito!"
Nossa! Uma vida inteira se passou, e eu não vi, não vivi...
- "Foi por escolha sua..."
Acordei do coma... Olhei em volta, e a claridade me cegava. E aí?
O céu era azul... Havia um mundo lá fora... Agora o sangue corre muito mais.
É, ele ainda está batendo!
E eu? Me descobri viva!
"O pulso ainda pulsa"
Ainda sinto correr o sangue dentro de mim...
Tum tum...
Tum tum...
Tum tum...
É, ele ainda está batendo!
Está inteiro? Sim, está! Mas não intacto...
Avalio as últimas escoliações e... Nossa!
O trauma foi grande dessa vez! Dilacerado? Não, mas consigo ver o outro lado.
Ele vai sobreviver... Achei que não, mas vai!
A recuperação é lenta, e veja! A ferida o atravessou!
Atingiu um órgão vital... O coração. Mas ele ainda bate.
Estou me recuperando... Quanto tempo passou? Uns três meses?
- "Não, oito!"
Nossa! Uma vida inteira se passou, e eu não vi, não vivi...
- "Foi por escolha sua..."
Acordei do coma... Olhei em volta, e a claridade me cegava. E aí?
O céu era azul... Havia um mundo lá fora... Agora o sangue corre muito mais.
É, ele ainda está batendo!
E eu? Me descobri viva!
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
E.L.A.
Ela
Contrariedade bela
Nunca vi mais linda flor
Cheia de espinhos
Ela
Metamorfose nua e crua
É a junção do Sol e da Lua
Desfaz meus caminhos
Tão sem jeito e chega de graça
Me abraça e faz pirraça
Brinca com minha imaginação
Me destrói suavemente
Inteligente, quebra a minha mente
Faz que não sente, me diz não
Mas é no calor da confusão que eu me encontro nela...
ELA... ELA... ELA...
Contrariedade bela
Nunca vi mais linda flor
Cheia de espinhos
Ela
Metamorfose nua e crua
É a junção do Sol e da Lua
Desfaz meus caminhos
Tão sem jeito e chega de graça
Me abraça e faz pirraça
Brinca com minha imaginação
Me destrói suavemente
Inteligente, quebra a minha mente
Faz que não sente, me diz não
Mas é no calor da confusão que eu me encontro nela...
ELA... ELA... ELA...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Medo de sonhar de novo - 16ª parte
As palavras de Ricardo chocavam contra as paredes do meu cérebro como um mar de ressaca bate nas pedras. Fiquei com a mente no modo “off” por alguns instantes, completamente perdida em minha confusão mental. Eu não fazia a menor idéia do que responder ali, e inevitavelmente, a única resposta que saia era um vago balançar de cabeça, afirmativo, ainda olhando para baixo.
Ao me voltar para ele, via que seu semblante mostrava uma satisfação que se tornava até um pouco sombria. Aquilo só fez aumentar o meu desespero, quando dei por mim, o que eu estava fazendo, e como tinha sido a reação dele. Será que eu estava fazendo o certo? Nossa, me surpreendi em ver que eu ainda conseguia raciocinar por mim mesma, enquanto o meu corpo não correspondia aos impulsos racionais da minha consciência.
Ricardo se aproximou e me abraçou, e aquilo era estranhamente reconfortante para mim, ao mesmo tempo em que repulsivo. Não estava entendendo absolutamente nada, estava muito confusa, e precisava ir embora, sair dali. Comentei com Ricardo que eu não estava bem, e ele propôs me levar pra casa.
No caminho, um milhão de juras de amor, que soavam como um filme repetido, um deja-vu. Meu rosto mostrava um contentamento que contrastava com o pouco da sanidade presente. Eu era triste e feliz, feliz e triste, ao mesmo tempo. Mas o que estava feito não tinha mais volta. Todo mundo diz que perdoar é humano, e eu estava apenas atingindo esses parâmetros. Pensar dessa forma me fazia sentir menos culpada.
Ao chegar em casa, minha mãe se surpreendeu e me ver ao lado de Ricardo, novamente tão íntima, e isso causou um calafrio sinistro nela. Presumo que ela estivesse pensando o mesmo que eu. As lembranças dos últimos tempos, e toda a fase ruim que se devam em relação ao término e a ele ainda queimavam na memória, como brasa de carvão de fim de fogueira. Mas como sempre, ela me deixou por minhas próprias decisões, e não interferiu em nada.
...
As semanas foram se passando, e aminha vida parecia estabilizada novamente. Tenho que admitir que passar essas semanas ao lado de Ricardo me fizeram muito bem. Em questão de tempo, as brasas que ardiam na mente foram se extinguindo, e a confiança foi restabelecida.
Tudo caminhava perfeitamente bem, e isso causava certa desconfiança em todos. É claro que agora, eu não me deixava mais anular pelas vontades de Ricardo, ou pelo simples fato de eu achar que estava respeitando o espaço dele, mas todas as mulheres gostam mesmo é de ser iludidas. Óbvio que seria ingenuidade demais da minha parte achar que uma retomada modificaria tudo, apagaria o passado, como se nada daquilo tivesse acontecido, mas... Eu cheguei a acreditar nisso.
...
Ricardo brincava com a minha mente, manipulava, induzia, jogava comigo como se eu fosse um peão de xadrez. Mas nada daquilo era visionado por uma garota boba de classe média, apaixonada. Mais uma vez eu me deixei levar, e mais uma vez eu cai nas armadilhas das palavras sedutoras dele. Mais uma vez, ele me tinha nas mãos para fazer o que quisesse. Eu tinha me apaixonado duas vezes pela mesma pessoa, e nem achei que eu fosse capaz de fazer isso.
As flores e as serenatas particulares, o poder de sedução, todas essas pequenas coisas que fazem a diferença voltaram a ser freqüentes no primeiro mês juntos “de novo”. E como de costume, enquanto isso existe, o sentimento só cresce, assim como se aduba uma planta. Essa calmaria e o mar de rosas reinaram durante um tempo razoável. Mais do que eu, inconscientemente, julgava. Durante seis meses eu acreditei que sim, poderia ser feliz ao lado dele de novo, como realmente fui. Mas, como todo começo tem um fim... Um novo inferno particular teve início. Dessa vez, não pelos meus ciúmes os cismas, mas pelas coisas da parte dele.
...
Ao me voltar para ele, via que seu semblante mostrava uma satisfação que se tornava até um pouco sombria. Aquilo só fez aumentar o meu desespero, quando dei por mim, o que eu estava fazendo, e como tinha sido a reação dele. Será que eu estava fazendo o certo? Nossa, me surpreendi em ver que eu ainda conseguia raciocinar por mim mesma, enquanto o meu corpo não correspondia aos impulsos racionais da minha consciência.
Ricardo se aproximou e me abraçou, e aquilo era estranhamente reconfortante para mim, ao mesmo tempo em que repulsivo. Não estava entendendo absolutamente nada, estava muito confusa, e precisava ir embora, sair dali. Comentei com Ricardo que eu não estava bem, e ele propôs me levar pra casa.
No caminho, um milhão de juras de amor, que soavam como um filme repetido, um deja-vu. Meu rosto mostrava um contentamento que contrastava com o pouco da sanidade presente. Eu era triste e feliz, feliz e triste, ao mesmo tempo. Mas o que estava feito não tinha mais volta. Todo mundo diz que perdoar é humano, e eu estava apenas atingindo esses parâmetros. Pensar dessa forma me fazia sentir menos culpada.
Ao chegar em casa, minha mãe se surpreendeu e me ver ao lado de Ricardo, novamente tão íntima, e isso causou um calafrio sinistro nela. Presumo que ela estivesse pensando o mesmo que eu. As lembranças dos últimos tempos, e toda a fase ruim que se devam em relação ao término e a ele ainda queimavam na memória, como brasa de carvão de fim de fogueira. Mas como sempre, ela me deixou por minhas próprias decisões, e não interferiu em nada.
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As semanas foram se passando, e aminha vida parecia estabilizada novamente. Tenho que admitir que passar essas semanas ao lado de Ricardo me fizeram muito bem. Em questão de tempo, as brasas que ardiam na mente foram se extinguindo, e a confiança foi restabelecida.
Tudo caminhava perfeitamente bem, e isso causava certa desconfiança em todos. É claro que agora, eu não me deixava mais anular pelas vontades de Ricardo, ou pelo simples fato de eu achar que estava respeitando o espaço dele, mas todas as mulheres gostam mesmo é de ser iludidas. Óbvio que seria ingenuidade demais da minha parte achar que uma retomada modificaria tudo, apagaria o passado, como se nada daquilo tivesse acontecido, mas... Eu cheguei a acreditar nisso.
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Ricardo brincava com a minha mente, manipulava, induzia, jogava comigo como se eu fosse um peão de xadrez. Mas nada daquilo era visionado por uma garota boba de classe média, apaixonada. Mais uma vez eu me deixei levar, e mais uma vez eu cai nas armadilhas das palavras sedutoras dele. Mais uma vez, ele me tinha nas mãos para fazer o que quisesse. Eu tinha me apaixonado duas vezes pela mesma pessoa, e nem achei que eu fosse capaz de fazer isso.
As flores e as serenatas particulares, o poder de sedução, todas essas pequenas coisas que fazem a diferença voltaram a ser freqüentes no primeiro mês juntos “de novo”. E como de costume, enquanto isso existe, o sentimento só cresce, assim como se aduba uma planta. Essa calmaria e o mar de rosas reinaram durante um tempo razoável. Mais do que eu, inconscientemente, julgava. Durante seis meses eu acreditei que sim, poderia ser feliz ao lado dele de novo, como realmente fui. Mas, como todo começo tem um fim... Um novo inferno particular teve início. Dessa vez, não pelos meus ciúmes os cismas, mas pelas coisas da parte dele.
...
Aos amores de uma vida: Amigos!

Sou muito feliz por tê-los, de alguma forma, mesmo que hoje, só na memória, ou “in memorian”. Todas as pessoas que marcaram pelo menos um pouquinho a minha história, são reconhecidas por mim mesmo como amigos. E cada fase da minha vida, fico feliz em reciclar, retomar os antigos, fazer novos, aumentando esse ciclo, que eu espero não ter fim.

Claro, eu tenho a minha teoria particular sobre os níveis de amizade. Existem aquelas amigas de colégio, que servem para fofocar sobre os gatinhos das turmas mais avançadas, ou aqueles amigos meninos, que todo mundo pensa que rola um climinha básico. Mas se rolar, o que é que tem? Afinal de contas, acho que você não escolheria um inimigo ferrenho para ser seu par.

Existem também aqueles amigos que estão sempre na sua casa, filando alguma coisa, mesmo que seja apenas a sua Internet, porque a dele “deu pau”. Aqueles que até a sua família adota, de tão freqüente que se torna a presença dele ali.

Mas dentre todos os subtipos de amizade, existem dois grandes grupos distintos, que devem ser levados em consideração: Amigos de Confidências e Amigos de Farra.

Amigos de Confidências são aqueles que, como o próprio nome já diz, você corre para contar seus segredos, suas confidências. É com ele que você vai chorar as suas mágoas de amores frustrados, de brigas em família, da sua primeira relação sexual, ou do amor proibido que você tem ou teve. Esse tipo de amigo costuma ser àquele pelo qual você daria a vida, se fosse necessário; que se passar por um perrengue daqueles, você faz das tripas coração para reverter a situação. São os seus amigos do lado esquerdo do peito, seus amigos de fé, irmãos camaradas.

Amigos de Farra são aqueles que você pode contar à qualquer hora para curtir uma boa night, para azarar alguém na praia, para te tirar da cama, quando a preguiça reina aos domingos. São eles que tornam seus dias mais alegres e espontâneos, que te arrancam uma risada até quando você não está muito bem. Que fazem piada do seu cabelo engraçado ou do tombo que você leva na escada de uma boate, bêbado como um gambá. São os seus amigos que você quer a companhia sempre que está solteiro, e que serão odiados pelos seus parceiros, se os mesmos não acompanharem o ritmo.

Não, eu não quis dizer que um grupo é mais ou menos alegre, que um se responsabiliza pelos seus momentos de dor e o outro não. Mas cá pra nós, a gente bem consegue distinguir quem é quem na nossa vida. E consegue ver a diferença de amizades que temos.
Mas será que é possível encontrar uma pessoa que faça parte dos dois ciclos, que corresponda aos quesitos encontrados em um e outro? Talvez... É uma possibilidade. Acho que conscientemente, você não trocaria confidências com uma pessoa que acabou de conhecer no barzinho, mas depois de cinco latinhas de cerveja (ou qualquer outra coisa)... A coisa muda um pouco de figura. Assim também pode ser que um dia, você vá comemorar seu aniversário naquele pagode (que fique bem claro que é só um exemplo) bombado do seu bairro, e consiga arrastar seus amigos mais íntimos, que não se arriscariam a entrar em um local como esse antes, não acha? Eu já fiz isso, e você também!

O importante é que ter uma vida cercada de amigos, de todos os tipos, de todas as tribos, faz um bem para o coração tão grande quanto tomar um cálice de vinho tinto por dia. A endorfina produzida pelo seu organismo, a sensação de prazer, as risadas, e as dores... Os estresses e as reconciliações... Cada momento é importante, e se não for para os dois, para pelo menos uma das partes, com certeza será.

E é por isso que hoje eu venho aqui, escrever essa pequena homenagem aos meus. Não tenho o costume de dizer que os amo, de abraçá-los, de beijá-los. Nem ao menos tenho o hábito de ligar aos fins de semana, pela minha insistente implicância com telefones. Mas é aqui que penso em todos eles, e os agradeço pelo simples fato de existirem, porque basta apenas isso, para me completarem.

E que seja considerado que à vocês, esteja registrado o meu abraço, o meu beijo, minhas trocas de “eu te amo” e tudo o mais. Desulpem-me meu jeito grosseirona, perdoem-me as falhas. Não sou tão perfeita nem tão ruim o quanto possa parecer.

E estejam sempre aqui, comigo; pois como dizia o poeta: Eu ficaria triste se um amigo meu morresse, mas enlouqueceria se todos se fossem.
(Dedico essa singela e humilde homenagem aos meus amigos de hoje, de ontem e aos que virão. Prefiro não citar nomes, posso falhar e esquecer-me de quem não deveria)
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Medo de sonhar de novo - 15ª parte
Uma questão era verdade: Ricardo não sabia usar as palavras, quando constrangido. Muito embora essa fosse uma situação nada comum, foram raras as vezes em que me deparei com o Ricardo sem jeito, tentando medir as palavras. Essa foi uma dessas situações. Ele se perdia entre pedidos de desculpas e confissões, entre assumir os erros e culpar a mim ou a alguém. E eu resolvi intervir.
- Primeiramente, Ricardo: você definitivamente precisa controlar seus sentimentos adversos. Eu entendi o que você quis dizer, ou acho que entendi, Mas para um ser humano normal, isso não seria possível. Segundo, até aqui, você apenas se tornou uma pessoa prolixa. Você roda, roda, e acaba sempre no ponto de partida. Seja mais simples e direto, que quanto menos tempo a gente perder, mais rápido a gente resolve esse assunto!
Ele ficou meio assustado, quando o interrompi com essa profusão de palavras que ao mesmo tempo agressivas, eram aflitas para saber o que estava por vir. Mas ele ponderou sobre o que eu disse e viu que delongas não levariam a nada.
Um gole a mais de suco, para tentar aliviar a tensão, Passou a mão na testa para enxugar o suor frio que brotava dos poros sem calor. É, até eu estava começando a ficar tão tensa quanto ele, e ainda assim, eu não sabia o que era, embora eu começasse a desconfiar do enredo. E por fim, ele começou a falar.
Ricardo me explicava que no começo não entendeu os meus motivos para ter terminado o relacionamento. Achava que eu tinha ficado obsessiva com meus ciúmes doentios, e que tudo era coisa da minha cabeça. Porém, analisando com calma todas as coisas, dizia ser ele o errado e que não tinha percebido. “Por isso, queria te pedir perdão, e uma segunda chance!”.
Aquelas palavras causaram uma estranha sensação de contentamento e um frio no estômago que chegou a gelar a minha espinha. Tive que controlar as minhas expressões faciais para não demonstrar nem susto, nem alegria, nem o que quer que eu estivesse sentindo... Na verdade, eu não queria sentir. Eu queria simplesmente ser imparcial à opinião dele. Mas não consegui muito sucesso... A confusão expressa fez com que Ricardo me olhasse de uma forma estranha, tão ou mais confusa quanto eu.
Acompanhando a turbulência sentimental, eu fiquei sem palavras para dizer alguma coisa em resposta a pergunta dele. Ricardo me olhava fixamente, como que esperando alguma reação.
- Uma segunda chance é muito vago...
- Você entendeu o que eu quis dizer com segunda chance!
- É, entendi, mas o que você quer de mim? Quer me deixar maluca?
- Poxa, Jessi! Não faz isso... Eu apenas errei sem perceber, e quando me dei conta, era tarde demais. Só que ainda assim, eu quis arriscar. Por favor?
...
- Primeiramente, Ricardo: você definitivamente precisa controlar seus sentimentos adversos. Eu entendi o que você quis dizer, ou acho que entendi, Mas para um ser humano normal, isso não seria possível. Segundo, até aqui, você apenas se tornou uma pessoa prolixa. Você roda, roda, e acaba sempre no ponto de partida. Seja mais simples e direto, que quanto menos tempo a gente perder, mais rápido a gente resolve esse assunto!
Ele ficou meio assustado, quando o interrompi com essa profusão de palavras que ao mesmo tempo agressivas, eram aflitas para saber o que estava por vir. Mas ele ponderou sobre o que eu disse e viu que delongas não levariam a nada.
Um gole a mais de suco, para tentar aliviar a tensão, Passou a mão na testa para enxugar o suor frio que brotava dos poros sem calor. É, até eu estava começando a ficar tão tensa quanto ele, e ainda assim, eu não sabia o que era, embora eu começasse a desconfiar do enredo. E por fim, ele começou a falar.
Ricardo me explicava que no começo não entendeu os meus motivos para ter terminado o relacionamento. Achava que eu tinha ficado obsessiva com meus ciúmes doentios, e que tudo era coisa da minha cabeça. Porém, analisando com calma todas as coisas, dizia ser ele o errado e que não tinha percebido. “Por isso, queria te pedir perdão, e uma segunda chance!”.
Aquelas palavras causaram uma estranha sensação de contentamento e um frio no estômago que chegou a gelar a minha espinha. Tive que controlar as minhas expressões faciais para não demonstrar nem susto, nem alegria, nem o que quer que eu estivesse sentindo... Na verdade, eu não queria sentir. Eu queria simplesmente ser imparcial à opinião dele. Mas não consegui muito sucesso... A confusão expressa fez com que Ricardo me olhasse de uma forma estranha, tão ou mais confusa quanto eu.
Acompanhando a turbulência sentimental, eu fiquei sem palavras para dizer alguma coisa em resposta a pergunta dele. Ricardo me olhava fixamente, como que esperando alguma reação.
- Uma segunda chance é muito vago...
- Você entendeu o que eu quis dizer com segunda chance!
- É, entendi, mas o que você quer de mim? Quer me deixar maluca?
- Poxa, Jessi! Não faz isso... Eu apenas errei sem perceber, e quando me dei conta, era tarde demais. Só que ainda assim, eu quis arriscar. Por favor?
...
Medo de sonhar de novo - 14ª parte
A minha garganta estava seca… dei uma golada de ar e, por conseguinte, consegui lubrificar com saliva o duto digestivo/respiratório. Ouvia vozes no fim do corredor, que eu até então não conseguia identificar ao certo. E então, tentei abrir meus olhos... A visão turva que me consumia a íris foi aos poucos se dissolvendo, e então pude ver o rosto que me observava atentamente, logo ao lado.
- Tereza, ela acordou!
- Vamos, vamos, ela acordou, exclamava a minha mãe, pelos corredores da casa.
- Ricardo, eu falei pra você que eu não queria você aqui... O que você quer???
- Calma, Jessi, eu vi aqui pra conversar com você... É que na verdade eu sinto a sua falta e, bem... Eu não fiquei mesmo sabendo das suas atuais condições, achei que você simplesmente tinha sumido por não querer mais me ver, e não porque estava... Assim!
-Assim como? (Eu escondia em minhas perguntas e agressividade a satisfação que eu sentia em vê-lo ali, do meu lado e preocupado comigo)
- Assim tão abatida, tão... Diferente!
- Se você veio aqui pra ser simpático, pode dando meia volta e sair daqui, por favor!
- Não vou sair daqui hoje sem conversar com você...
- Ai, minha filha... Não me dê mais um susto desses!!! Você está se sentindo bem? – Ricardo... me desculpe, meu filho, mas acho melhor você voltar outra hora.
Naquele momento olhei triunfante para o rosto preocupado de Ricardo. Não sei realmente o que ele procurava tentando conversar comigo. Já disse que não queria mais nada com ele, e por mais que a dor da perda fosse grande, não justificava uma recaída. Mas tenho que admitir que o contato com ele me fez ficar um pouco mais viva, um pouco menos inerte e imersa naquele submundo escuro em que me enfiei e não queria mais sair. E a melhora foi gradativamente visível.
...
Todas as memórias que borbulhavam em minha mente estavam me matando pouco a pouco. Parte de mim procurava reagir e salvar o pouco de sanidade que me restava depois de tudo o que passei em alguns anos anteriores. Ao mesmo tempo, eu era insuportável e constantemente sugada ao buraco negro que há tanto tempo havia sido controlado. A cada sono mal dormido, me via mais parecida com o ser estranhamente obsceno e repugnante que conheci em mim mesma. Nunca pensei que uma pessoa comum pudesse se tornar alguém tão insignificante e desprezível ao mesmo tempo.
Além disso, cada vez que o sono batia, tinha mais medo de sonhar de novo. Os meus sonhos nada mais eram do que uma reprise bem feita dos pesadelos mais escabrosos que um dia eu tive. Pesadelos esses que refletiam uma realidade constante, até meu tratamento psiquiátrico. Bom, até aqui pelo menos.
...
- Ricardo, sou eu!
- Oi Jessi, já está melhor?
-Muito melhor do que você, pode ter certeza!
- Então, já podemos conversar?
- Se não pudesse, eu não estaria ligando...
- Ok, trator! Quando eu posso te ver?
- Não precisa! Estou na frente da sua casa!
...
- Que bom te ver, Jessi! Ainda bem que você está melhor...
- Bom, não posso dizer a mesma coisa, quanto a te ver, mas... Sabe como é? A curiosidade feminina é um problema sério.
- Eh... hum... Bom, entre... Fiquei à vontade!
- Nossa! Estou vendo que muitas mudanças aconteceram por aqui... Espere aí... Mudanças essas que eu te sugeri há um tempo.
- Pois é... Isso é uma parte do que eu gostaria de ter conversando com você, quando a senhorita quase me expulsou da sua casa, mesmo que... Desculpe! Não queria tocar no assunto.
- Não por isso... Pois bem, não se bebe nada nessa casa?
- Desculpe! Quer alguma coisa?
- Whisky... O melhor que você tiver aí...
- ...
- Hahahaha.... Brincadeira, eu não posso beber, lembra? Remédios controlados!!! (Essa era realmente uma brincadeira desnecessária naquele momento, mas eu quis quebrar o gelo, e na verdade, qualquer clima que pudesse pintar, por estarem ali, os dois sozinhos).
- Han... Ok, um suco, talvez?
- Ok... Um suco!
Dali por diante, eu comecei a me perguntar o que eu estava fazendo? Agi por um impulso incontrolável da minha curiosidade insana, mesmo que ainda não estivesse muito bem. Mas agora, meio caminho tomado não me permitia voltar atrás. E já que um ato impensado havia me levado até ali, melhor dar cabo de todo o processo, sendo fiel aos propósitos iniciais: saber o que o Ricardo queria naquele último dia de crise.
Depois de gentilmente me servir, percebi que um brilho diferente penetrava os olhos de Ricardo. Ainda não conseguia entender claramente o que aquilo significava. Saberia mais adiante.
Sentamos no sofá bege encardido da sala um pouco mais harmoniosa do que a minha antiga visão dos aposentos de Ricardo. Ele me questionou sobre se eu havia gostado das mudanças feitas, e eu concordei levemente com a cabeça. Ainda um pouco constrangida com toda aquela situação, continuava me indagando internamente o que eu estava fazendo ali, e por conta dos pensamentos a minha timidez foi tomando conta de mim. Me vi como uma criança boba que não tem argumentos para conquistar aquele pirulito que o pai tomou.
Finalmente, ele puxou assunto e perguntou diretamente o que eu estava fazendo. Não entendi com que intenção aquela pergunta havia sido feita, inicialmente, e fiz uma cara engraçada e curiosa ao mesmo tempo. A minha reação provocou um leve riso no canto da boca de Ricardo, que refez a pergunta com mais objetividade. A única coisa que saiu da minha boca naquele momento foi “Vim saber o que você quer me falar, vim para te ouvir”.
...
- Tereza, ela acordou!
- Vamos, vamos, ela acordou, exclamava a minha mãe, pelos corredores da casa.
- Ricardo, eu falei pra você que eu não queria você aqui... O que você quer???
- Calma, Jessi, eu vi aqui pra conversar com você... É que na verdade eu sinto a sua falta e, bem... Eu não fiquei mesmo sabendo das suas atuais condições, achei que você simplesmente tinha sumido por não querer mais me ver, e não porque estava... Assim!
-Assim como? (Eu escondia em minhas perguntas e agressividade a satisfação que eu sentia em vê-lo ali, do meu lado e preocupado comigo)
- Assim tão abatida, tão... Diferente!
- Se você veio aqui pra ser simpático, pode dando meia volta e sair daqui, por favor!
- Não vou sair daqui hoje sem conversar com você...
- Ai, minha filha... Não me dê mais um susto desses!!! Você está se sentindo bem? – Ricardo... me desculpe, meu filho, mas acho melhor você voltar outra hora.
Naquele momento olhei triunfante para o rosto preocupado de Ricardo. Não sei realmente o que ele procurava tentando conversar comigo. Já disse que não queria mais nada com ele, e por mais que a dor da perda fosse grande, não justificava uma recaída. Mas tenho que admitir que o contato com ele me fez ficar um pouco mais viva, um pouco menos inerte e imersa naquele submundo escuro em que me enfiei e não queria mais sair. E a melhora foi gradativamente visível.
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Todas as memórias que borbulhavam em minha mente estavam me matando pouco a pouco. Parte de mim procurava reagir e salvar o pouco de sanidade que me restava depois de tudo o que passei em alguns anos anteriores. Ao mesmo tempo, eu era insuportável e constantemente sugada ao buraco negro que há tanto tempo havia sido controlado. A cada sono mal dormido, me via mais parecida com o ser estranhamente obsceno e repugnante que conheci em mim mesma. Nunca pensei que uma pessoa comum pudesse se tornar alguém tão insignificante e desprezível ao mesmo tempo.
Além disso, cada vez que o sono batia, tinha mais medo de sonhar de novo. Os meus sonhos nada mais eram do que uma reprise bem feita dos pesadelos mais escabrosos que um dia eu tive. Pesadelos esses que refletiam uma realidade constante, até meu tratamento psiquiátrico. Bom, até aqui pelo menos.
...
- Ricardo, sou eu!
- Oi Jessi, já está melhor?
-Muito melhor do que você, pode ter certeza!
- Então, já podemos conversar?
- Se não pudesse, eu não estaria ligando...
- Ok, trator! Quando eu posso te ver?
- Não precisa! Estou na frente da sua casa!
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- Que bom te ver, Jessi! Ainda bem que você está melhor...
- Bom, não posso dizer a mesma coisa, quanto a te ver, mas... Sabe como é? A curiosidade feminina é um problema sério.
- Eh... hum... Bom, entre... Fiquei à vontade!
- Nossa! Estou vendo que muitas mudanças aconteceram por aqui... Espere aí... Mudanças essas que eu te sugeri há um tempo.
- Pois é... Isso é uma parte do que eu gostaria de ter conversando com você, quando a senhorita quase me expulsou da sua casa, mesmo que... Desculpe! Não queria tocar no assunto.
- Não por isso... Pois bem, não se bebe nada nessa casa?
- Desculpe! Quer alguma coisa?
- Whisky... O melhor que você tiver aí...
- ...
- Hahahaha.... Brincadeira, eu não posso beber, lembra? Remédios controlados!!! (Essa era realmente uma brincadeira desnecessária naquele momento, mas eu quis quebrar o gelo, e na verdade, qualquer clima que pudesse pintar, por estarem ali, os dois sozinhos).
- Han... Ok, um suco, talvez?
- Ok... Um suco!
Dali por diante, eu comecei a me perguntar o que eu estava fazendo? Agi por um impulso incontrolável da minha curiosidade insana, mesmo que ainda não estivesse muito bem. Mas agora, meio caminho tomado não me permitia voltar atrás. E já que um ato impensado havia me levado até ali, melhor dar cabo de todo o processo, sendo fiel aos propósitos iniciais: saber o que o Ricardo queria naquele último dia de crise.
Depois de gentilmente me servir, percebi que um brilho diferente penetrava os olhos de Ricardo. Ainda não conseguia entender claramente o que aquilo significava. Saberia mais adiante.
Sentamos no sofá bege encardido da sala um pouco mais harmoniosa do que a minha antiga visão dos aposentos de Ricardo. Ele me questionou sobre se eu havia gostado das mudanças feitas, e eu concordei levemente com a cabeça. Ainda um pouco constrangida com toda aquela situação, continuava me indagando internamente o que eu estava fazendo ali, e por conta dos pensamentos a minha timidez foi tomando conta de mim. Me vi como uma criança boba que não tem argumentos para conquistar aquele pirulito que o pai tomou.
Finalmente, ele puxou assunto e perguntou diretamente o que eu estava fazendo. Não entendi com que intenção aquela pergunta havia sido feita, inicialmente, e fiz uma cara engraçada e curiosa ao mesmo tempo. A minha reação provocou um leve riso no canto da boca de Ricardo, que refez a pergunta com mais objetividade. A única coisa que saiu da minha boca naquele momento foi “Vim saber o que você quer me falar, vim para te ouvir”.
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