terça-feira, 10 de agosto de 2010

Medo de sonhar de novo - 17ª parte

- Aonde você vai?
- O que?
- Aonde é que você tá indo (Ricado segurou meu braço com uma força desnecessária
- Ricardo, solta o meu braço agora!
- Não... Eu quero saber primeiro!
- Para com isso, seu louco! Ta me machucando... - Fiz força para tentar me desvencilhar das mãos que me apertavam em um quase estrangulamento. – O que deu em você? Bebeu?
- Não, eu não bebi... Pelo contrário, estou suficientemente sóbrio pra querer satisfação de onde a minha mulher está indo a essa hora...
- Hahahaha (dei uma risada irônica muito pouco convincente... Na verdade, estava com medo daquela situação), e você por acaso tem o documento, a minha escritura, declaração de posse? Até onde eu sei, nem aliança no dedo eu tenho!
- E desde quando isso significa alguma coisa pra você? O que me interessa é o que eu sei, e não o que eu tenho que provar para os outros, fora da relação. Mas se é isso que você acha... tudo bem, vai.

Ricardo, nesse momento, estava aos berros comigo. Aquela fúria repentina pelo simples fato de me ver um pouco mais arrumada fez com que se mostrasse uma personalidade que até então eu não conhecia. Onde tinha ficado aquela criatura pacata que esteve comigo durante todo aquele tempo? Uma pessoa normal não conseguiria fingir ou esconder esse lado por tanto tempo. E é aqui que eu me atentei pela primeira vez sobre as estranhezas de comportamento dele.

Além de todas as coisas que ele fazia e eu não percebia, como me controlar, de uma forma tão doce que eu não sentia o que estava acontecendo, ou quando fazia charme para conseguir o que queria. As coisas eram milimetricamente desenhadas por ele, enquanto eu era dopada mentalmente, com doces gestos de carinho. E então, um estalo: justamente quando me neguei a fazer as coisas que ele queria, enquanto ele pedia de forma doce, fiz aparecer um mostro que se escondia sob a pele de cordeiro.

No dia seguinte, podia ver as marcas da discussão do dia anterior. Os hematomas variavam dos tons vinho ao roxo-esverdeado, acompanhados de uma dor incômoda. Retomei todos os passos dados no dia anterior, e cada vez mais ficava mais assustada com o que havia acontecido. Peguei meu celular e nada mais, nada menos do que vinte e cinco mensagens dele ocupavam a minha caixa de entrada, com pedidos de desculpas, juras de amor e “te amo” proclamados em cada uma delas, como se aquelas palavras quisessem gritar. Como se fossem uma tentativa de lavagem cerebral, com repetições... Assim como acontece nos comerciais.

Na paranóia de não saber o que fazer, no conflito que se passava pela minha mente, eu me olhava e sentia uma grande aversão, que contrastava com o sentimento que nutri até ali. Aquele sentimento que demorou tanto tempo para ser recontruídos. Meu olhar procurava algum ponto de foco, mas era evasivo e vazio. Ainda assim, eu topei conversar com ele, depois de tudo o que havia acontecido.

Não contei para ninguém o que houve no dia anterior e bem, as marcas eram fáceis de serem escondidas, com roupas mais compridas e maquiagem. Assim o fiz e fui em frente, sem que ninguém pudesse desconfiar de qualquer mal agouro. E fui para a casa de Ricardo. E me encaminhei ao que deveria ser um pesadelo.


Toquei a campainha duas ou três vezes, ansiosa pela recepção. Não sabia se aquilo seria bom ou ruim, e essa expectativa me torturava internamente. Achei que Ricardo deveria estar dormindo, ou muito ocupado com alguma coisa que não o deixava me atender. Pensei em abrir a porta, pois presumia ter intimidade suficiente para fazê-lo, mas... Ponderei os últimos fatos e percebi que na verdade eu não era íntima de ninguém, que pouco conhecia aquela pessoa com quem passei um bom tempo.

Mais alguns instantes, e ele surgiu na minha frente, com um aspecto sujo e cansado, mas tentando se recompor, tentando se limpar ao máximo, para poder ter contato. Mas pensou melhor e apenas me pediu para entrar e ficar à vontade. Me adiantou que iria tomar banho, para ficar um pouco mais apresentável. Ligou a televisão, e sumiu pelo corredor da casa, até o banheiro de seu quarto.

Meus olhos procuravam por evidências que me mostrassem alguma intenção, alguma coisa que me esclarecesse o que estava por vir, o que estava acontecendo... A falha que insistia em se preservar na minha mente, o que eu poderia lembrar e esquecer da noite anterior. É, seria imprudência minha não contar a ninguém. Mais ainda retornar ao ponto de onde aquele pesadelo começara.

...

Hoje eu fui visitar o Dr. Maurício. Ele foi o meu psiquiatra há algum tempo, não sei bem ao certo quanto. Ele foi o responsável pela minha volta à normalidade, depois de tantas coisas terem acontecido. Depois do tratamento terminado, Dr. Maurício me disse que qualquer sintoma de desequilíbrio, ou qualquer lembrança que perturbasse a minha suposta cura deveriam ser relatados.

Assim o fiz. Liguei para ele, dizendo que eu precisava conversar com ele, pois não estava em meu estado normal. Antecipei alguns dos mais recentes acontecimentos, e então, ele marcou uma consulta de urgência. Dr. Maurício sabia que qualquer leve recaída me traria traumas muito difíceis de reverter.

...

Ricardo saiu do banho, se arrumou e veio de encontro a mim, na sala. Perguntou se eu queria alguma coisa, e me acarinhava como normalmente. Até que ele passou a mão pelo meu braço, na parte em que as escoliações ainda doíam. Fiz uma contração involuntária, e ele estranhou. Perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu fiz que não era nada demais. Então ele passou a mão novamente, e mais uma vez, uma recusa de toque. Ricardo não se conteve e pediu para ver o que tinha em meu braço. Eu fiz que não, mas ele insistiu.

Ricardo olhava, pasmado com as manchas roxas, o meu braço. Parecia um tanto confuso e me perguntou o que havia acontecido comigo. Eu o olhava, incrédula. Perguntei se ele não tinha ideia, e ele disse que não. Fitei o rosto de Ricardo e ele não esboçava nenhuma reação, nenhum semblante de culpa, de dor, de arrependimento, nem nada. Então o questionei sobre as mensagens, e ele nem soube me responder. Disse que estava embriagado, e que me mandou mensagens porque não queria me fazer sofrer novamente, como há alguns meses. Agora, quem estava embasbacada era eu.

...

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