Naquela quinta-feira atípica, era uma noitinha quente de trinta e um de outubro, e a fantasia pesada de “Jack cabeça de abóbora” já começavam a surtir mais irritação do que diversão, principalmente pelo suor que escorria, das têmporas até o pescoço, criando uma grande poça de suor empapado e grudento no peito daquela bata branca, amarelada pelos resquícios de nicotina.
Sim, com apenas quinze anos, Mauricius já fumava... E bebia, como gente grande. Obviamente sem o consentimento do pai, que hoje era o responsável legal daquele adolescente que perdera precocemente a mãe.
O garoto não só acompanhava os hábitos adultos, como também a mentalidade. Mauricius era capaz de sentar com qualquer pessoa, de qualquer idade, para uma boa e longa conversa, recheada de experiências que não condiziam com a sua idade. E a sua imagem, envelhecida pelo consumo desses vícios, por vezes o entregava, e isso o atrapalhara, de certa forma, no seu desempenho de busca dos doces das casas vizinhas.
Por isso, traçou de forma detalhada, a sua estratégia para conseguir, eficientemente, a sua “renda” da noite. E se vocês pensam que ele foi realmente atrás dos doces, se enganaram. Mauricius se reuniu com alguns garotos da sua faixa etária cronológica e armou uma pequena emboscada para os pequenos caçadores de gostosuras. E pelas esquinas, aprontava travessuras com as crianças, enquanto tomava posse das recompensas alheias. Ele sabia que a superstição dizia que não era bom roubar os doces das crianças naquela noite. Mas eram apenas superstições.
Logo depois de se dar por satisfeito com a féria doce do dia, o pequeno adulto foi pra casa se arrumar, pois havia marcado com alguns dos meninos maiores do bairro, uma festa de Halloween, para realizar tudo aquilo que os meninos da idade dele ainda não podiam fazer – bebedeiras, orgias, música alta, drogas.
Já em casa, ele só pensava em tirar aquela fantasia o quanto antes, para ter o rosto preparado para uma refrescante lufada de ar. Os seus brios estavam remexidos e a irritação não auxiliava em nada, as tentativas sem sucesso de retirar a cabeça de abóbora. Quando finalmente conseguiu tirar aquele artefato maldito, que alívio! Sentou à beira da cama e ali descansou por alguns minutos, antes de entrar no banho.
Ali mesmo ele começou o processo de tirar as roupas suadas, seguindo pelos sapatos sociais tão engraxados que conseguiam revelar, tal qual um espelho, o que estivesse ao alcance do seu reflexo. Ao retirar a bata, assim que a passou pela cabeça, teve a ligeira impressão de ter visto alguém em sua janela. A confusão tomou conta do seu rosto, criando linhas de expressões quase engraçadas, mas ao retomar a visão aguçada, conferiu a janela e nada viu. Resolveu deixar pra lá e continuou o seu caminho ao banheiro, já despido, pronto para revigorar seu corpo com a água fria que começava a cair do chuveiro.
Durante o banho, o garoto refletiu sobre as coisas que fez naquele dia, e se divertia com as lembranças, com as caras assustadas dos meninos menores do bairro, quando ele, com aquela cabeça de abóbora gigante, aparecia, modificando a voz, pra não ser reconhecido. No deleite da sua memória, de olhos fechados, ele sentia a água percorrer seu corpo e cada nó de estresse contido nos seus ombros e costas se desfazer. Estalou o pescoço e abriu os olhos. E em fração de segundos, a imagem de uma mulher, da qual ele não conseguiu nem identificar, invadiu sua mente, como que em flashes de um strobo de boate.
Mauricius parou, olhou para os lados, tentou forçar ao máximo sua memória para lembrar daquela fisionomia, mas não adiantava. Ele simplesmente só conseguia distinguir uma mulher na imagem gerada pelo batom e cabelos compridos.
Ele então saiu do banheiro e foi se arrumar, encafifado com que aconteceu durante o banho, ainda tentando em vão, forçar um pouco a mente, mas nada adiantava. Escolheu suas roupas para a festa e desceu.
Chegando à sala, deu de cara com o Sr. Kilders, seu pai, que ao ver o seu filho arrumado, questionou seu destino. Meia hora de conversa convincente e o garoto meticuloso e estrategista conseguiu convencer o pai de que a festa era tranquila, e que dormiria no local. Apareceria então, apenas na manhã seguinte, provavelmente para o almoço.
Sr. Kilders já não se importava mais com as saídas do filho, mesmo que algumas delas tenham sido extremamente conturbadas, lhe causando enormes dores de cabeça com a polícia local. Mas naquela cidadezinha pequena que se escondiam, as coisas eram mais fáceis de resolver.
Na verdade, o pai de Mauricius não queria criar inimizades com o garoto, pois sentia-se sozinho a maior parte do tempo, desde o falecimento de sua esposa; e criar uma situação que revoltasse um adolescente ao ponto de atiçar sua rebeldia, ele não queria. Conhecia muito bem o gênio do rapaz, era igual ao de sua mãe e, se ele desse um motivo que fosse, sabia que o garoto partiria.
Então, Mauricius foi à festa de Halloween, com a ideia de libertação, em que ninguém tomaria conta da sua vida justamente na celebração da semana dos mortos. Não, ele não queria encheção de saco, ele não queria sermão, ele queria diversão, da maneira que houvesse. E nada melhor do que a casa de Carl, já que os seus pais estavam viajando e a tutela havia sido designada à irmã mais velha de seu amigo, que tinha lá os seus dezenove, e claro que ela adorou e concordou com a ideia, desde que ela também chamasse os do grupo dela.
E então, seria perfeito! Pessoas mais velhas eram um sinal de que a festa teria tudo àquilo que ele queria, tudo aquilo que os meninos de quinze anos ainda não podiam ter ou fazer... ou participar, legalmente. A liberdade estava ali, o chamando, e esse pensamento já o embriagava no caminho.
Os olhos do pequeno adulto brilhavam quando a porta se abriu e Carla, fantasiada de vampira, com um vestido vermelho tão justo quanto curto, sobreposto por uma renda negra, o atendeu com um enigma que valia a sua entrada. A resposta correta não somente liberou a passagem como rendeu um beijo de cantinho da loira voluptuosa.
Mauricius sentiu um enorme prazer com aquela atitude, causando-lhe um grande arrepio dorsal, e um leve enrijecimento do nervo genital, que foi logo controlado para não causar constrangimentos. Voltou ao normal e entrou na festa, que já ostentava um grande número de fantasiados.
Sangria! Ele queria sorver o gosto das maçãs ao vinho... Queria ficar louco. Alguns Jelly Shots também eram servidas, e ele tomou várias... Louco! Desvairava na euforia momentânea do álcool que possuía suas veias. Olhava, já transtornado, os amigos de bairro e os desconhecidos presentes. E se deparou com um dos rostos mais lindos do local com olhar fixo em sua direção.
Olhou para os lados, para conferir se aquela investida era realmente direcionada a ele. E sim, era! A mulher de negras madeixas mordia sensualmente os lábios coloridos pelo batom vermelho sangue. A imagem! Seria aquilo uma espécie de dejà vu? Premonição? Mauricius apenas sabia que agora a imagem em flashes que apareceu em seu banheiro se moldava exatamente ao rosto daquela mulher que o encarava.
Encorajado pela bebida, ele se levanta e anda em direção àquela boa aparição da noite. Uma gótica de longos cabelos negros, de pele alva e delicada, corpo esguio e desejável, não pelo efeito que a roupa lhe causava, como o de Carla, mas pela aparência que muito perturbava a mente daquele garoto. Um olhar atraente daquele era capaz de fazê-lo queimar por dentro.
Iniciou então o seu papo com a moça de voz suave, porém grave, de tons femininos, mas ardentes. Cada vez mais o desejo de tê-la o acometia. Apresentou-se e perguntou o nome da bela morena que o olhara, e num tom de mistério ela respondeu: “Mary”.
E em alguns minutos de conversa, por iniciativa do álcool, do desejo, da coragem súbita, Mauricius se atreveu em um beijo, que foi correspondido. Nesse momento, a adrenalina percorrendo o sangue fez com que o coração acelerasse e ele sentisse seu pulsar na jugular, nos pulsos. A excitação tornava o beijo cada vez mais quente, que mantinha o ritmo acelerado, causando um círculo vicioso. Mary então fez uma proposta, sussurrada ao ouvido, convidando-o a ir ao banheiro.
Lá, Mary mostrou o seu lado mais mulher, mais excitante e perturbador. Puxou Maurícius para dentro do recinto, pressionando-o contra seu corpo, deslizando a mão livre pelo seu peito até chegar ao botão da calça. Olhando fixamente para o rosto do menino, os olhos de Mary cintilaram como duas brasas e um sorriso de canto de boca revelou a maldade presente em seu ser.
Enquanto Mary beijava seu pescoço, o pequeno rapaz experimentava sensações nada comparadas às que ele já havia vivido. Nada igual ou parecido. Aquilo tudo era muito melhor. A mulher estava no comando, e ele gostava do que via e sentia.
Alucinado, Mauricius sentia calafrios ao ver a moça beijar seu peito e descer, retirando blusa, calça, e tudo que fosse obstáculo para o contato de sua boca com o corpo do rapaz. Descendo, Mary deixou propositalmente livre a visão de Mauricius para o espelho que ficava em cima da pia, e ele olhava para seu reflexo, que demonstrava o prazer sentido. Continuou olhando para o espelho até perceber que mesmo ao alcance do reflexo, Mary não aparecia nele.
Então olhou para baixo... Olhou para o espelho novamente. Mais uma vez para baixo e disse: “Mary... eu...”. E sem tempo de completar a frase que constatava sua estranheza perante o fato, um longo gemido de prazer invadiu sua boca. “Mary... Mary... Mary!”. E um grito foi abafado pelo som alto da música que tocava.
Na manhã seguinte, Sr. Kilders tinha o olhar perdido, enquanto se sentava na calçada, tentando entender o que aconteceu. As lágrimas escorriam involuntariamente pelo seu rosto. A polícia isolava a casa de Carl e Carla, para manter as evidências do crime registrado. No banheiro do segundo andar, o corpo inerte de Mauricius jazia nu; expressão de pavor, com os olhos e o pênis arrancados, pedaços de espelho cravados e espalhados pelo corpo, e no antebraço esquerdo, o sangue já ressecado marcava um nome de mulher, o nome de “Blood Mary”.