quinta-feira, 24 de junho de 2010

Medo de Sonhar de novo - 11ª parte

Algumas coisas foram se modificando com o tempo. Aos poucos, as pessoas que estavam em nosso convívio puderam perceber nosso afastamento dos outros. Começávamos a viver um mundinho completamente nosso, pelo menos a meu ver. Ainda que em público, éramos sempre apenas eu e ele, ele e eu, e nada mais. Nada mais importava, e eu sentia que sem ele, a minha vida não andaria.

Eu ficava, aos poucos, completamente cega às influências externas, e enxergava apenas o Ricardo e todas as coisas que faziam referências a ele. Todas aquelas formas de falar e me encantar pareciam um feitiço. Eu conseguia apenas enxergá-lo, e isso foi, aos poucos, me tornando uma pessoa retrancada, retraída e anti-social.

Cheguei ao ponto em que as minhas amigas da república não me chamavam para os eventos, nem para ir ao cinema, sequer trocávamos muitos olhares. Aos poucos fui deixando de assistir as aulas da faculdade e, em menos de seis meses de namoro, decidi trancar o meu curso, para ter mais tempo a dedicar ao meu amor. Aquele amor que me consumia como um filho, que exigia atenção vinte e quatro horas diárias, e se eu pudesse deixar de dormir para dar atenção, para viver mais intensamente todo aquele vício.

E comecei a perceber o mundo de Ricardo ao meu redor. Quando estávamos à sós, éramos um completo aconchego. Tínhamos conversas sobre tudo, e ele pode conhecer um pouco mais de mim, parte essa que ficava escondida de todas as outras pessoas, e que aparecia apenas nos momentos de intimidade. Assim como eu, Ricardo também tinha uma versão dentro de casa. Era leve e suave, sem aquele ardor de clima de sedução, mas com o fogo do clima de romance, o carinho.

À medida que eu me tornava um ser isolado do mundo, Ricardo passou a me olhar com outros olhos. A arte de seduzir que já não era tão intensa, mas ainda assim existia. Perto das outras pessoas, ele era o galanteador que continuava suas investidas. Mas não comigo. O Don Juan de Marco ainda estava lá, mas para as outras pessoas, para outras mulheres. Junto com o meu vício, percebi que residia em mim uma doença chamada ciúmes.

Esse tipo de comportamento gerou uma série de discussões, de atritos, de confusões. Sempre achava que esse era o instinto natural do Ricardo, e que a culpa era das oferecidas sem par que o rodeavam. E eu sempre discutia, brigava, jogava podres no vento, como se eles existissem. O desgaste do meu relacionamento com Ricardo veio daí, e eu não resisti, e terminei.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Medo de sonha de novo - 10ª parte

Chegamos finalmente em casa, após a pequena viagem do shopping até a república da faculdade. Todo aquele percurso, que outrora parecia uma eternidade tornou-se extremamente rápido, graças à companhia. Chamei Ricardo para entrar, e educadamente ele recusou o convite, mas eu insisti. Expus o meu próprio ponto de vista, sobre a sua furtiva visita, enquanto eu estava em nenhuma condição de recebê-lo. E então, ele concordou entrar por alguns minutos, mas deixou claro que ele não queria ser responsabilizado por eu não estudar para meus exames.

Ofereci uma xícara de café, algo que raramente podia ser encontrado dentro de casa, visto que nenhuma das meninas era chegada. Mas guardávamos um pouco de Nescafé solúvel, para casos de emergência, como esse. E dentre um gole e outro, acabamos alguns assuntos que ficaram pendentes dentro do carro. E então, fui notificada do interesse repentino dele por mim. Ricardo dizia que eu era um ser muito peculiar, e que isso o fascinava, mas que além de tudo, havia o interesse corpóreo, o toque, a pele, a atração, e todos os outros fatores que levam um ser humano a ser atraído por outro.

Fiquei extremamente vaidosa com todas as coisas que pude perceber que ele notou em mim, em tão pouco tempo. Meu ego foi massageado de forma gostosa e relaxante. Senti uma ponta de timidez, e essa, mesmo que a menor parte dos meus sentimentos, foi a que eu mais exteriorizei, mesmo que involuntariamente.

Mas olhei fundo, olhei nos olhos. Senti a respiração parar por alguns segundos, antes que eu pudesse tomar qualquer tipo de atitude. E pensei que aquela seria a hora de ser espontânea o suficiente, para atacar. E ataquei. E acertei o bote. E assim aconteceu o nosso primeiro beijo. Muito melhor do que eu imaginava...

Senti um arrepio percorrer toda a minha espinha, e se enraizar por todas as partes do meu corpo, jorrando uma corrente elétrica até as extremidades dos meus dedos. Era uma sensação sublime! Na verdade, era um beijo muito mais do que comum, mas todo aquele clima de sedução, toda aquela expectativa, o momento, a atitude, tudo tornava aquele momento muito melhor, quase que mágico. E quando findou-se o beijo, parecia que eu tinha despertado de um sonho. Sonho do qual eu queria nunca mais acordar. Mas ele tinha que ir embora, e eu tinha que estudar, além do que eu não podia dormir tarde. E então, Ricardo se despediu de mim com mais um beijo encantador, e prometeu que voltaria.

Ele cumpriu. Ele voltou. E a cada volta, era mais um laço estreitado entre nós. Ricardo parecia ser aquele complemento de vida que tanto procuramos para nós mesmos. Parecia sim, que ele tinha um manual de instruções de como tornar os meus momentos mais felizes, complementar as minhas frases, adivinhar os meus pensamentos e me agradar da exata forma que eu gostaria de ser. Mimava, acarinhava, aconchegava, tudo era tão maravilhoso, e tudo era tão intenso que o nosso relacionamento evoluiu para um namoro, muito mais rápido do que eu e ele imaginávamos, e muito antes do que supostamente gostaríamos, ha um tempo.

Todo o nosso relacionamento tinha uma aparência de tão perfeito, e assim era, que causava inveja nas minhas amigas de república. E nas amigas de classe, e em todas as pessoas que almejavam um relacionamento de comercial de margarina. E os dias se passavam e eu sempre mais envolvida, sempre mais apaixonada pelos discursos, pelas palavras corretamente selecionadas, pelos movimentos de mãos em sincronia com os dizeres, pelas expressões faciais, e por tudo de bom que ele me proporcionava. Tudo era tão magnífico, e tudo me viciava, e eu queria sempre mais.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Medo de sonha de novo - 9ª parte

Respirei todo o ar que pude puxar para os meus pulmões naquele momento. O grito que precedeu a inspiração profunda assustou até os pássaros que repousavam na fiação elétrica em frente à minha casa. O suor escorria frenéticamente pelo meu rosto, e eu estava lívida, com os olhos vidrados e assustados. O pesadelo tinha sido terrível.

Todo aquele processo de lembranças à tona trouxeram o pânico. Nem o anti depressivo estava dando conta daquilo tudo. As águas salgadas transbordantes já estavam presentes em meu rosto novamente. Começava a perceber, então, que aquilo não acabaria tão cedo.

O celular tocava, e apenas muitos minutos depois de acordada eu conseguia perceber seu ruído, naquele momento estridente e estranhamente perturbador. Eu tinha completa noção de que não havia forças suficiente dentro de mim, nem para caminhar até o telefone. Mas ele tocava insistentemente, e eu me arrastei pelo chão, onde eu já me encontrava; e pela cama, até alcançá-lo.

Um embrulho no estomago tomou conta do meu corpo e da minha mente. Ricardo? Fixei o olhar, pois a visão estava cada vez mais turva e sentia que iria apagar. Mas ainda lembro que antes disso, um pensamento veio acompanhado da minha queda em cima do meu próprio vômito: Por que ele voltava?

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Medo de Sonhar de novo - 8ª parte

Começava a ficar tarde, quando anunciei que deveria voltar para casa, para estudar algumas matérias específicas do curso da faculdade. Ele, então, me ofereceu carona, e eu relutei por alguns instantes... Mas pensei melhor! Vi que em condições muito piores, no dia da festa da faculdade, ele teria toda a oportunidade de ser abusivo, e não foi. E não havia mais motivos para falso moralismo. Além disso, uma carona era muito bem vinda, até pela economia, afinal de contas, estudantes nunca têm dinheiro para nada.

Outro bom motivo para que eu aceitasse a carona era o fato de eu poder prolongar um pouco mais todo aquele deleite de prestar atenção em cada palavra pronunciada por aquele rapaz. Não havia motivo específico, mas o modo de falar de Ricardo tinha um completo magnetismo, e prendia completamente a minha atenção.

E assim aconteceu, fomos até a garagem do shopping, e ele pediu que eu esperasse até que ele quitasse o estacionamento. Depois nos direcionamos ao Gol bolinha prata, muito simples para quem via de fora, mas muito confortável e bem equipado por dentro. Ele sugeriu que eu ligasse o rádio, para me distrair, mas confesso que aquela não era a minha intenção; eu queria continuar emergida no fascínio que desenvolvi por ele.

Além disso, parte de mim estava um tanto angustiada. Toda aquela cerimônia me confundia sobre as intenções daquele rapaz. Em condições normais, qualquer um já teria avançado o sinal há muito tempo, e no entanto, ele continuava a me respeitar. Já não sabia se ele estava simplesmente interessado na minha amizade ou em algo mais. Pensei então se o certo seria que eu tomasse a atitude, mas aquilo não seria eu, nunca foi do meu feitio ser “avançadinha”. Resolvi esperar.

Liguei o som, e fui selecionar a estação de rádio... Nada prestava, e o sinal pelas bandas da faculdade era péssimo. Perguntei então por CDs, de preferência MPB, e ele, não para minha surpresa, me apresentou um deck abarrotado de preciosidades. Escolhi então, um cantor não muito usual, embora conhecido. E ele se encucou: “Nossa, você conhece isso? Achei que fosse só eu”. Respondi então que boa parte da minha herança cultural eu devia ao bom gosto da minha família, e que João Gilberto me remetia a minha mãe, e matava um pouco as saudades.

Cantarolei um pouco de “Desafinado” e ele deu um risinho escondido. Fiquei constrangida e ele olhou de rabo de olho. Perguntou então o porquê de eu ter parado de cantar, e eu disse que eu estava me identificando muito com o título da música, e o riso então não foi nada comedido. E rimos os dois.

Pensei em tudo estar perfeito demais até ali. Nunca havia passado por uma situação daquela, em que a companhia me fizesse tão bem. Fui sentindo com os meus sentidos, incluindo o sexto, que aquilo com certeza seria muito mais, pelo menos para mim; e me assustei com a proporção do sentimento, mesmo com tão poucos encontros.

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Agora eu estava saindo do meu estado de letargia, dentro do Box do banheiro. Inundado pelo vapor da água quente que caia do chuveiro, não apenas o blindex, mas os espelhos e todos os vidros do local estavam tão embaçados quanto a minha mente. Peguei a minha toalha e me enxuguei, enrolando-a em meu colo assim que retirei o excesso de água. Fui até o meu quarto ainda com os olhos marejados, perturbados com as lembranças recentes. Todo aquele turbilhão de sentimentos me confundia, embaralhava toda a minha mente, e me trazia sentimentos que eu não queria voltar a sentir.

Comecei a chorar compulsivamente, e fui mexer então, em uma caixinha de lembranças, que havia abandonado há tempos. Lá, encontrei o CD de João Gilberto que eu havia ganhado em algum dia do passado. Já nem conseguia me recordar direito de todas as coisas que eu havia vivido, e aquelas lembranças vieram tão forte... As lágrimas ainda escorriam forte pelo meu rosto, e os soluços vieram acompanhar. Me desesperei quando percebi que um princípio de crise nervosa se aproximava, e o meu CD caiu no chão. Estática, juntei minhas poucas forças que consegui encontrar em mim, para correr até a frasqueira de remédios. Eu õ queria só meu antidepressivo, mas o remédio mais forte que eu encontrasse para me fazer dormir.

No desespero, tomei quatro comprimidos de Pramil, e a combinação foi bombástica. Não consegui chegar à cama, e cai, dopada, no chão da porta do quarto.

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terça-feira, 1 de junho de 2010

Medo de Sonhar de novo - 7ª parte

-Alô?
-Alô!
-Oi... Bom dia, boa tarde, não sei. Eu poderia falar com o Ricardo?
-Pois não?!
-Ah, é... Oi Ricardo, é a bêbada angelical! (Não poderia perder a piada naquele momento).
-Olá... Bom dia, são duas horas da tarde! – risos ecoaram do outro lado – Dormiu bem?
-Sim, sim... E você?
-Bem. A Bêbada angelical vai me falar seu nome hoje? Acho uma troca justa, pelo meu número e telefone, não?
-Hahaha... Engraçadinho! Mas tudo bem, vai lá, também acho justo... Prazer, meu nome é Jéssica.
-Ah, sim... Bem melhor, agora que já sei seu nome, posso te chamar pelo nome, para sair?

Aquilo definitivamente era um pedido de encontro... E eu fique momentaneamente paralisada, pensando no que eu poderia responder, que não me tornasse uma oferecida, mas também nenhuma boa samaritana. E aceitei o convite com uma risadinha, seguida de um “pode ser”. Nada estimulante, mas não pensei em nada melhor antes disso.

Dados cadastrais trocados, local, data e hora confirmados e o dia chegou. Resolvi por em prática a tática nada planejada, porém convencional, de atraso estratégico das mulheres. Mas como eu odeio esperar por qualquer coisa pela qual eu queira muito, quase me trai nesse sentido. Cheguei ao shopping com pouco atraso, no máximo uns quinze minutos. Fui diretamente ao 2º pavimento, na praça de alimentação. Me controlei para não ser atraída pelos chamarizes das lojas de sapato e roupas em liquidação de verão, que já se ia. Nada interromperia o meu objetivo naquela empreitada.

Chegando à praça de alimentação, busquei o telefone do Ricardo no celular e apertei o “send”. Na verdade, a minha tentativa de achá-lo foi frustrada, pois fui achada primeiro. Ele me surpreendeu quando, ao dar o primeiro toque no seu telefone, ele respondeu furtivamente com um “alô” ao pé do meu ouvido.

Ele me questionou dos próximos passos dentro daquele shopping fechado. Deixou no ar que não se sentia muito confortável em ambientes como aquele, porém se prontificou a estar ao meu lado o tempo que fosse necessário. Agiu de forma cavalheira, ao dizer que conversar comigo, com certeza, dispersaria suas tensões, e que o tempo passaria sem que pudesse senti-lo.


Fomos então ao restaurante italiano preferido dele. Claro, sob aquelas condições, não queria deixá-lo tão tenso a ponto de dispersar seus pensamentos de vez e não obter a atenção que eu achava justa. E lá, conversamos por longas horas.

Todas as palavras remetidas a qualquer assunto, que ali foram proferidas apenas me confirmavam o que eu pensei algumas noites anteriores, em uma conversa nada sã, em uma festa de faculdade. Ainda assim, mesmo que sem controle sobre meus movimentos, mas consciente dos meus pensamentos, lembrada de que aquela forma doce e mole de falar, por vezes me fazia duvidar da sua conduta. Mas aquele olhar e os jogos de palavras entravam em conflito com esse pensamento.

Todo aquele discurso sobre o céu, a terra, a água e o ar eram estranhamente encantadores aos meus ouvidos. Sua voz causava uma espécie de frisson interno. Seus movimentos, que poderiam parecer bruscos, em certas horas, eram suaves aos meus olhos. Naquele momento eu começava a me sentir muito mais que atraída por ele, mas ainda não era perceptível. A não ser para mim, que ficava me controlando sobre as minhas caras e bocas.

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