Algumas coisas foram se modificando com o tempo. Aos poucos, as pessoas que estavam em nosso convívio puderam perceber nosso afastamento dos outros. Começávamos a viver um mundinho completamente nosso, pelo menos a meu ver. Ainda que em público, éramos sempre apenas eu e ele, ele e eu, e nada mais. Nada mais importava, e eu sentia que sem ele, a minha vida não andaria.
Eu ficava, aos poucos, completamente cega às influências externas, e enxergava apenas o Ricardo e todas as coisas que faziam referências a ele. Todas aquelas formas de falar e me encantar pareciam um feitiço. Eu conseguia apenas enxergá-lo, e isso foi, aos poucos, me tornando uma pessoa retrancada, retraída e anti-social.
Cheguei ao ponto em que as minhas amigas da república não me chamavam para os eventos, nem para ir ao cinema, sequer trocávamos muitos olhares. Aos poucos fui deixando de assistir as aulas da faculdade e, em menos de seis meses de namoro, decidi trancar o meu curso, para ter mais tempo a dedicar ao meu amor. Aquele amor que me consumia como um filho, que exigia atenção vinte e quatro horas diárias, e se eu pudesse deixar de dormir para dar atenção, para viver mais intensamente todo aquele vício.
E comecei a perceber o mundo de Ricardo ao meu redor. Quando estávamos à sós, éramos um completo aconchego. Tínhamos conversas sobre tudo, e ele pode conhecer um pouco mais de mim, parte essa que ficava escondida de todas as outras pessoas, e que aparecia apenas nos momentos de intimidade. Assim como eu, Ricardo também tinha uma versão dentro de casa. Era leve e suave, sem aquele ardor de clima de sedução, mas com o fogo do clima de romance, o carinho.
À medida que eu me tornava um ser isolado do mundo, Ricardo passou a me olhar com outros olhos. A arte de seduzir que já não era tão intensa, mas ainda assim existia. Perto das outras pessoas, ele era o galanteador que continuava suas investidas. Mas não comigo. O Don Juan de Marco ainda estava lá, mas para as outras pessoas, para outras mulheres. Junto com o meu vício, percebi que residia em mim uma doença chamada ciúmes.
Esse tipo de comportamento gerou uma série de discussões, de atritos, de confusões. Sempre achava que esse era o instinto natural do Ricardo, e que a culpa era das oferecidas sem par que o rodeavam. E eu sempre discutia, brigava, jogava podres no vento, como se eles existissem. O desgaste do meu relacionamento com Ricardo veio daí, e eu não resisti, e terminei.
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