-Alô?
-Alô!
-Oi... Bom dia, boa tarde, não sei. Eu poderia falar com o Ricardo?
-Pois não?!
-Ah, é... Oi Ricardo, é a bêbada angelical! (Não poderia perder a piada naquele momento).
-Olá... Bom dia, são duas horas da tarde! – risos ecoaram do outro lado – Dormiu bem?
-Sim, sim... E você?
-Bem. A Bêbada angelical vai me falar seu nome hoje? Acho uma troca justa, pelo meu número e telefone, não?
-Hahaha... Engraçadinho! Mas tudo bem, vai lá, também acho justo... Prazer, meu nome é Jéssica.
-Ah, sim... Bem melhor, agora que já sei seu nome, posso te chamar pelo nome, para sair?
Aquilo definitivamente era um pedido de encontro... E eu fique momentaneamente paralisada, pensando no que eu poderia responder, que não me tornasse uma oferecida, mas também nenhuma boa samaritana. E aceitei o convite com uma risadinha, seguida de um “pode ser”. Nada estimulante, mas não pensei em nada melhor antes disso.
Dados cadastrais trocados, local, data e hora confirmados e o dia chegou. Resolvi por em prática a tática nada planejada, porém convencional, de atraso estratégico das mulheres. Mas como eu odeio esperar por qualquer coisa pela qual eu queira muito, quase me trai nesse sentido. Cheguei ao shopping com pouco atraso, no máximo uns quinze minutos. Fui diretamente ao 2º pavimento, na praça de alimentação. Me controlei para não ser atraída pelos chamarizes das lojas de sapato e roupas em liquidação de verão, que já se ia. Nada interromperia o meu objetivo naquela empreitada.
Chegando à praça de alimentação, busquei o telefone do Ricardo no celular e apertei o “send”. Na verdade, a minha tentativa de achá-lo foi frustrada, pois fui achada primeiro. Ele me surpreendeu quando, ao dar o primeiro toque no seu telefone, ele respondeu furtivamente com um “alô” ao pé do meu ouvido.
Ele me questionou dos próximos passos dentro daquele shopping fechado. Deixou no ar que não se sentia muito confortável em ambientes como aquele, porém se prontificou a estar ao meu lado o tempo que fosse necessário. Agiu de forma cavalheira, ao dizer que conversar comigo, com certeza, dispersaria suas tensões, e que o tempo passaria sem que pudesse senti-lo.
Fomos então ao restaurante italiano preferido dele. Claro, sob aquelas condições, não queria deixá-lo tão tenso a ponto de dispersar seus pensamentos de vez e não obter a atenção que eu achava justa. E lá, conversamos por longas horas.
Todas as palavras remetidas a qualquer assunto, que ali foram proferidas apenas me confirmavam o que eu pensei algumas noites anteriores, em uma conversa nada sã, em uma festa de faculdade. Ainda assim, mesmo que sem controle sobre meus movimentos, mas consciente dos meus pensamentos, lembrada de que aquela forma doce e mole de falar, por vezes me fazia duvidar da sua conduta. Mas aquele olhar e os jogos de palavras entravam em conflito com esse pensamento.
Todo aquele discurso sobre o céu, a terra, a água e o ar eram estranhamente encantadores aos meus ouvidos. Sua voz causava uma espécie de frisson interno. Seus movimentos, que poderiam parecer bruscos, em certas horas, eram suaves aos meus olhos. Naquele momento eu começava a me sentir muito mais que atraída por ele, mas ainda não era perceptível. A não ser para mim, que ficava me controlando sobre as minhas caras e bocas.
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