terça-feira, 13 de julho de 2010

Medo de Sonhar de novo - 12ª parte

Durante a primeira semana após a minha decisão de terminar, tive experiências muito ruins, conhecendo o meu corpo e suas reações ao amor, na sua pior face. Vômitos, tremores, calafrios e febres delirantes. Ter um coração partido ou ferido por alguém se torna insuportável quando a distância piora os sintomas, e a outra pessoa se mostra indiferente a você.

Assim Ricardo me tratou durante aquele estágio inicial. Parecia que ele reagia como que com o orgulho ferido, como alguém que tivesse sido injustiçado, como se eu fosse a carrasca da história toda. Poucas eram as pessoas que sabiam da real história, e na verdade, ninguém sabia mais do que eu o que se passava pela minha mente naqueles momentos, o meu motivo para não dar continuidade.

Com a mudança de comportamento da pessoa a quem devotei meus últimos lampejos de sanidade, fiz esgotar a fonte de lucidez. Tentava reconhecer no espelho uma pessoa que não existia mais, que apenas pertencia ao passado não tão distante, e à memória de alguns. Pouco a pouco, fui percebendo no monstro que eu criava, à pão de ló dentro de mim. Vi também o monstro me corroer por dentro, fazendo com que eu despejasse em qualquer lugar o que eu não tinha em meu estômago. O que vinha era apenas um sinal da rebelião das vísceras: um líquido viscoso e verde, provavelmente vindo da Bile.

Cinco quilos mais magra depois de uma semana, tentei me olhar novamente naquele espelho, que acabei tapando com uma toalha de mesa branca e fina. Não suportei ver sequer a mancha roxa que circundava os meus olhos, como quem estivesse em recuperação de uma luta de boxe. Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo naquela situação, não tinha nem forças para reagir, mesmo que meu interior estivesse gritando insistentemente por socorro.

Finalmente, algum sinal de luz apareceu como que para ofuscar os meus olhos. Preocupadas comigo, porém ainda magoadas com o meu comportamento anterior, as meninas da República resolveram fazer uma reunião e me chamar para participar, e, claro, saber como eu estava reagindo a tudo aquilo... Elas sabiam que não era nada bom o meu estado, e que minha companhia não era nenhum pouco agradável. Nem banhos eu tomei com freqüência nos últimos dias, e já estávamos entrando na segunda semana sem Ricardo na minha vida.

Ter os olhos chocados das meninas em cima de mim foi um tormento sem fim. Algumas mal me viam pela casa, outras nem mais se davam conta da minha existência, a não ser pelo meu quarto. Com os últimos relatos, Bianca, a presidente da República, me aconselhou a ficar fora do quarto por um tempo, e voltar para a casa da minha família. Por um tempo relutei, mas vi que sim, essa poderia ser a melhor opção, até mesmo para fugir das lembranças recentes.

...

Mais uma semana cuspindo a gosma verde, não me alimentando, e providenciando a minha retirada da República, e Voilà! Eu era praticamente um retrato falado do Smeagol, o personagem da história “Senhor dos Anéis”. A transformação só foi realmente relevante pra mim, quando cheguei em casa, e a minha mãe quase não me reconheceu, a não ser por um dos traços mais marcantes em mim: os olhos. Ainda que embaçados, vidrados e sem vida, ainda assim, a minha mãe os reconheceria, e assim fez.

Horrorizada com o meu estado, mas sempre elegante ao ponto de tentar disfarçar, minha mãe escondia o desespero, mas me olhava com compaixão. Ela me deu todo o espaço do mundo para falar até onde eu quisesse, e até onde eu pudesse. Não tocava no assunto por ela mesma, mas me recomendou uma visita ao médico.

Eu achei tudo aquilo um exagero... Médico para quê? Eu estava apenas passando por uma fase ruim, que com certeza passaria. Com certeza aquilo era neura de mãe, e eu não queria mesmo ir a médico algum. Mas no final da terceira semana, eu á não tinha mais o que emagrecer ou desidratar, os meus vômitos, eram crônicos, e nada dava jeito; as minhas olheiras já não cabiam em meu rosto, e as noites varadas sem sono, me tornavam quase uma vampira. As alucinações não eram mais da febre, e sim, do fruto da minha imaginação, e eu estava, ainda que sem saber, ficando louca.

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