sexta-feira, 16 de julho de 2010

Medo de Sonhar de novo - 13ª parte

Embora eu me recusasse a um tratamento qualquer, minha mãe procurou algum auxílio com especialistas, e compro um calmante. Ela me dava as dosagens necessárias misturadas às bebidas e comidas que ela me forçava a ingerir. E assim, ela me dopava, de pouquinho em pouquinho, para que eu pudesse dormir e me pusesse mais maleável às opiniões alheias.

Mamãe preocupava-se cada dia mais com o meu estado. Ela, por estar de fora, conseguia enxergar o que eu demorei a ver. Mentalmente, eu não estava bem, e tudo isso por causa de uma desilusão amorosa. Ninguém poderia compreender ao certo o porquê disso tudo; não era natural, não era normal. Nunca fui uma pessoa tão presa, tão ligada aos meus companheiros anteriores, e então, não conseguia compreender o que havia de errado dessa vez.

Esse estado deplorável durou como apenas uma manhã, para mim, mas a minha mãe anotava dia após dia minha evolução mental. Ás vezes melhorando, às vezes recaindo, às vezes pior do que todas as vezes anteriores. Eu, pessoalmente, não posso dizer ao certo como me sentia, porque todas as informações adquiridas nesse tempo estão tão apagadas como quando formatamos o HD do nosso computador. Era realmente uma estática, e o meu verdadeiro eu havia se escondido em algum lugar da minha mente, que eu não conseguia achar.

Um mês e meio se passou na casa, e eu já estava de cama. Essa fase letárgica, de coma semi-induzido já alcançava os dois meses, no total. Não satisfeita em me dopar, mamãe chamou um psiquiatra pelo telefone, e explicou a minha condição. E eu só sei da minha recusa porque a minha mãe me contou. Mas o estalar de dedos do “acorda!” veio com um barulhinho que eu não ouvia havia muito tempo. Um toque personalizado que vinha do meu celular...

Quem estava presente no momento, viu uma cena bizarra: aquele ser magro e sem vida, cor de laboratório, despenteado e apático se virou com vigor para estender as mãos até a cabeceira. Os olhos que voltaram a ter brilho contrastavam com a opacidade da pele morta do rosto chupado da menina. Ao pegar o telefone, tive a confirmação, quem me ligava era Ricardo.


...

- A-eeer-a-alô?!
- Boa tarde! Gostaria de falar com a Jéssica, por favor?
- ...
- Jéssica, é você?
- Sim...
- Oi Jessi, eu tentei te ligar algumas vezes, mas não consegui, não tive coragem. Fiquei sabendo que você não está muito bem, e...
- Quem te disse que eu não estou bem, Ricardo? Eu estou ótima, obrigada!
- Jessi, você é péssima atriz... E quem entrou em contato comigo foi a sua mãe.
(Caramba, que facada no peito... A minha própria mãe traindo as minhas condições)
- Ta, se eu estou ou não bem, acho que isso não importa muito pra você... Não foi importante quando terminamos.
- Você terminou, Jessi... Você!
- E o que você quer?
- Conversar com você, será que é posível?
- Não!
- Ok! Estarei na sua casa daqui a pouco.


“Mãããããããããeeeeeeee...” – Aquele grito, eu dei com as últimas forças que me sobravam, para me manter acordada. Após isso eu apaguei em desmaio, mas tenho certeza de que a vizinhança também o ouviu. Dez minutos depois, acordei com os rostos da minha mãe e de Ricardo, acima do meu, esperando o meu despertar forçado, com algodão banhado em vinagre.

...

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