terça-feira, 31 de agosto de 2010

Medo de sonhar de novo - 19ª parte

"Bem vinda ao inferno", rosnou Ricardo ao meu ouvido. "Sinta-se hornada por conhecer pessoalmente o criador dos seus pesadelos e pecados... Tenha o prazer ou desprazer, como queira... De conhecer a mim". Eu realmente acreditei de estar conhecendo Lúcifer.

Cada palavra pronunciada causava tormentas de arrepios na minha espinha, que se espalhava rapidamente pelo resto do meu corpo. O que ele iria fazer, o que eu tinha feito para que ele fizesse isso comigo? Nenhuma das minhas perguntas poderia ser respondida, até porque, eu não tinha condições de pronunciá-las, devido ao medo, e aos sentidos entorpecidos que eu consegui com toda aquela mistura de sentimentos. Parecia que eu tinha sido drogada. E não duvido muito que realmente tenha sido, num dos momentos de descuido ou que a minha memória ainda não tivesse capturado.

-Ricardo (balbuciei como uma criança aprendendo a falar), Por quê? O que eu te fiz?
-Nada meu bem, absolutamente nada! Quem está fazendo alguma coisa aqui sou eu...

Enquanto falava, Ricardo não expressava nenhum sentimento, nada! Acariciava meu rosto sorrindo, mas os olhos estavam opacos, sem nenhuma vida. E logo depois da carícia, um tapa ardeu como fogo nas minhas bochechas. E em seguida o trovão:

-Mas se você quiser continuar falando, eu posso ficar um pouco irritado... É isso o que você quer?
-Não - murmurei.
-Então, minha linda, cale a merda da sua boca!

E eu me calei, enquanto sentia o ardor do tapa que recebera, gritando por dentro com a dor, mas meu corpo apenas respondia com mais algumas lágrimas, que ainda brotavam, quando eu achava que não era mais capaz de produzir uma.

Acho que fiquei umas cinco horas em silêncio quase que absoluto, a não ser pelos meus soluços, enquanto Ricardo via tv, ou comia, ou ia ao banheiro, ou fazia qualquer outra atividade. Até que eu tentei de novo:

-Ricardo?
-Eu acho que mandei você ficar quieta, não mandei??
-E quando derem por minha falta?
-Você acha sinceramente que alguém vai dar por sua falta, meu bem? Não seja tão prepotente assim...
-Mas e minha mãe?
-Você quer realmente sustentar essa conversa, sua vagabundinha? Ok, a sua mãe não vai dar por sua falta por um simples motivo: eu disse que você ia passar alguns dias comigo, para aproveitar a... reconciliação - e um risinho sarcástico saiu do canto da sua boca.
-E a faculdade? Você acha que as meninas não vão dar por mim?
-Jessi, meu amor... Vamos relembrar os fatos: um de nós dois é considerado não tão normal, depois de certas atitudes suspeitas nos últimos meses. E adivinha? Essa pessoa não sou eu. Então, o que te faz pensar que elas não achem que você teve outro surto ou coisa do tipo? Não se esqueça nunca, meu bem, que a tarja preta é sua!
-Você me dá nojo!
-Ha-ha-ha... Engraçado, não era isso que você gritava, quando agia como uma putinha, gritando na cama, enquanto eu fazia o favor em te comer. Aliás, acho que você anda dormindo de calças ultimamente... Está precisando de um homem, está? Anda, fala, sua cachorra!
-Não, Ricardo, não!!!
-Eu acho que está, vem cá, sua vadia!
-Para, para...

Os gritos cessaram quando fui amordaçada. ainda amarrada, Ricardo tirou a minha roupa e me estuprou várias vezes, até que a sua ira tivesse passado. Eu me recordo até a terceira vez, quando desmaiei, fraca, sem comida, cansada e sem dormir. Achei que ali eu teria o sono dos justos, e que nunca mais fosse acordar... Mas acordei.

Sentia uma ardência insana por entre as minhas pernas. Olhei para o meu corpo e vi as marcas das agressões, além de sangue. Procurei ver de onde vinha, mas não conseguia encontrar com exatidão, só pude concluir que saia da minha parte genital. A visão ainda era meio turva, mas também consegui distinguir alguns pedaços de vidro em volta. Duvidei por um instante se era realmente meu sangue, mas não tinha como não ser... Ele ainda pingava pelo chão, e partia de mim.

...

Enquanto dormia, via claramente as imagens desse passado traumatizante em meus sonhos. No plano real, o psiquiatra e minha mãe tentavam controlar um ataque epilético que eu tinha, enquanto a febre não baixava. compressas de água fria estavam ao lado da minha cama, e meus movimentos bruscos derrubaram a bacia com água e gelo no chão.

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Tentei recuperar as minhas forças, lembrei como odiava ver sangue, e quase desmaiei novamente. Foquei meus pensamentos em coisas racionais, e algumas fantasiosas, para refugiar a minha mente, quando dava conta das coisas que estavam acontecendo ao meu redor. Ricardo estava dormindo no sofá, mas eu sabia que qualquer movimento que eu tivesse o acordaria.

Pensei então se seria possível eu ter acesso a algum daqueles cacos. Talvez eu pudesse realizar uma daquelas façanhas de filme, e cortar a corda que amarrava os meus pulsos. Mas como eu faria isso sem despertar a besta adormecida no sofá?

Olhei tentando fixar a vista na direção de Ricardo e vi algo que já era de se esperar. Havia uma seringa em cima da mesa de centro, e algumas ampolas, que com certeza eram drogas injetáveis... Qual eu não sei, mas... Se ele está drogado, pensei comigo mesma, ele não vai acordar se eu fizer um pouco de barulho. Resolvi testar, gemi um pouco e o corpo dele estava inerte. Um pouco mais alto e nada. Então movimentei a cadeira, para que eu caísse com a cadeira de lado. Um, dois, três... E o susto.

Quase não aguentei suportar o grito na garganta. O som saiu como um urro abafado, como se tivesse entrado, ao invés de sair. Não sabia ao certo se eu tinha quebrado o braço ou deslocado o ombro, mas sabia que a dor era enorme. Respirei fundo e chorei, como um bebê... Por um momento esqueci que o monstro repousava sua "onda" a alguns metros de mim. Recuperei as minhas forças e tentei mexer o braço. Outra onda de dor, e agora o grito foi quase gutural. Eu suava frio, o meu corpo tremia, e eu sentia que perderia a consciência de novo...

Acordei com o rosto do monstro encarando o meu, esperando que eu despertasse para tentar entender o que eu tentara fazer enquanto a aberração dormia. Por um momento, tive um flash de como era engraçado ver que do príncipe encantado eu vi nascer o bicho-papão. E ainda não tendo certeza da dor que eu sentia, eu ri para aquele rosto que por momentos foi encantador para mim. Meu sorriso sumiu quando vi reluzir o meu sorriso nos olhos daquela criatura, e dei por mim do que estava acontecendo.

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