- O que você andou aprontando aqui, sua louca? Olha essa bagunça! Vai me dar trabalho pra arrumar isso tudo...
Ricardo olhava a sujeira no chão, os cacos de vidro, o sangue. E me culpava por aquilo? Como assim? O responsável por aquilo tudo era ele mesmo. Mas é claro que naquele estado eu não poderia nem argumentar de quem era ou não a culpa.
De repente me veio uma ideia: sabe quando aqueles animais que sempre são a presa se fingem de mortos para enganar o predador? Pois foi nisso que eu pensei, em me fazer de morta e forjar um outro desmaio. Talvez fechar os olhos me fizesse acordar do pesadelo que eu estava vivendo ali, naquela casa, com aquele homem. E cerrei meus olhos.
Ainda com os olhos fechados, não sabia se eu fazia força pra realmente desmaiar ou me esforçava pra dormir. Mas podia escutar todas as coisas que aconteciam ao meu redor... Ricardo levantou a cadeira em que eu estava sentada e amarrada, resmungando e xingando, dizendo ao vento o quanto eu era burra por ter caído, que só tinha feito cortar meu braço e fazer mais sujeira pra ele limpar. Logo depois, a vassoura e um balde, para lavar o chão... Eu ainda não me arriscava a abrir os olhos, mas a nova atividade de perceber o mundo ao meu redor prendia a minha atenção e se fazia a minha distração.
Comecei a perceber tudo em volta. Inclusive a vida fora da casa, os passos do cachorro, se estava passando algum carro. Isso prendia um pouco da minha atenção e me ajudava. O barulho da arrumação cessou e Ricardo sumiu para dentro da casa. Abri rapidamente meus olhos, para ver o que acontecia além do que meus ouvidos podiam captar. Realmente a sujeira havia sido limpa, e eu podia ouvir dentro do quarto de Ricardo era apenas alguns pequenos ruídos. Resolvi me examinar. O sangue havia parado de pingar, mas realmente tinha um vidro enorme no meu braço. É, eu não havia nem quebrado um osso, nem deslocado o ombro, a dor vinha do músculo sendo dilacerado pelo resquício de vidro. Me sacudi um pouco para avaliar as escoriações, e percebi algo que me animou, a cadeira estava frouxa, e provavelmente não resistiria a outro tombo. Mas ponderei que uma queda naquele momento poderia não causar a minha libertação, mas algo muito pior.
Ouvi novos movimentos do quarto, era Ricardo vindo. Retomei o meu estado de desmaio forjado.
Ele voltou e pegou o meu rosto, nada delicadamente. Tentou me acordar, me chamando pelo nome e eu apenas gemi. Ele desistiu e me aplicou uma injeção. Fiquei ligeiramente desesperada, por não saber o que ele estava fazendo comigo, e vi que levar adiante o plano de me fazer de morta poderia ser perigoso. Mas na mania de falar sozinho, ou comigo enquanto em dormia ou desmaiava, ele me "contou" o que estava fazendo... Melhor, ele narrava o que fazia, passo-a-passo.
Aquilo era um anti-inflamatório, para evitar qualquer complicação devido às últimas feridas. O caco de vidro no braço e sei lá o que ele tinha feito comigo nas regiões baixas poderia ser um problema, caso eu precisasse ser atendida por algum médico, ou mesmo numa emergência de hospital. Além disso, ele retirou o vidro do meu braço, e eu não pude resistir em minha encenação. Precisei abrir os olhos e dar razão ao sentido da dor. Recebi um "bom dia, bela adormecida" como resposta.
Revirei os olhos como gentileza ao seu comentário, e fui cuidar de perceber a minha dor, que era mais agradável do que a presença dele, ainda que a dor fosse enorme. Com o rosto virado, comecei a planejar o que eu poderia fazer para afrouxar ainda mais a cadeira em que eu estava. Precisaria dos intervalos em que Ricardo não estivesse presente, ou que ele estivesse dormindo, ou dopado com as suas drogas. Sabia que era um plano que não se resolveria em dois segundos, mas deveria me manter forte, e economizar as minhas últimas reservas de energia para conseguir realizá-lo. E foi isso o que me deu força até o final.
E assim o fiz... Todas as vezes que Ricardo se ausentava, eu me remexia na cadeira, tentando forçar ao máximo os pinos de encaixe, para os afrouxar um pouco mais, para que seu desmonte fosse certo na próxima queda. Muitas outras vezes Ricardo se drogou na minha frente, e até que pegasse no sono, ou eu fingia estar dormindo, ou permanecia muda no meu silencio induzido. Desde o começo, ele não me liberava nem para ir ao banheiro, então fazer o trabalho sem que ele percebesse, sem que ele averiguasse a cadeira era mais fácil.
Um dia inteiro se passou nessa novela de ausências e remelexos até que eu percebesse que a cadeira estivesse pronta para o fatídico próximo tombo. O rompimento das vigas seria inevitável, e eu poderia finalmente me ver livre daquele pesadelo.
Antes mesmo que eu pusesse minhas atividades em prática, fiz uma varredura local de todas as coisas que estavam naquela sala... Não poderia sair nua pela rua, da forma que eu estava, com vestígios de sangue, sem causar nenhum alarde. E isso poderia prejudicar qualquer tentativa de escape, caso Ricardo acordasse. Então vi onde estavam as minhas roupas, seria meu primeiro paradeiro. Tentei me lembrar também onde o monstro havia escondido as chaves de casa, pois com certeza ele teria trancado a porta. A janela poderia ser uma segunda alternativa.
Eu tinha que ter tudo exatamente planejado na minha cabeça, com planos "bes" e "ces" para que nada pudesse falhar e me fazer ficar por mais tempo. E apenas quando tudo já estava na minha mente eu consegui dar cabo do plano. Era hora de por tudo em prática.
Me certifiquei de que Ricardo realmente não escutava nada do que eu fizesse, com os ruídos e gemidos da primeira vez. Nada acontecia, e então o balançar quase desastroso da cadeira, até que ela tombasse e fosse ao chão.
Bingo! Ela espatifou e quebrou algumas partes, a principal era a parte das minhas mãos, mesmo que elas estivessem amarradas entre si. Mas já era o suficiente para eu dar a volta por mim e alcançar as cordas dos pés. Com algum esforço eu consegui desatar os nós da corda nos pés, mas e as mãos? Me levantei e fui até a cozinha. Levantar foi a parte mais difícil depois de dias sentada, sem comer, e com todo aquele sangramento. Eu estava muito fraca, e forçava a respiração, como que controlando a vontade de desmaiar. Respirei fundo várias vezes até chegar a gaveta de talheres, procurando por uma faca. Consegui me soltar completamente, e o desespero de querer sair dali ficava cada vez maior. Mas aquela faca em minhas mãos fez com que surgisse o desejo de vingança, de descontar tudo aquilo que eu sofri na mão dele. Tudo o que ele me fez passar naqueles dias agoniantes. Eu precisava agir rápido, e me decidir mais rápido ainda.
Fui até a sala e coloquei a minha roupa. Chequei a porta, e como eu havia dito, trancada. Onde estariam as chaves?? Só me restava a janela. E a faca que ainda estava em minhas mãos. O desejo de me livrar de Ricardo era grande demais, muito maior do que o amor que eu devotei um dia. E então, fui em direção ao sofá. Sem muito pestanejar, empunhei a faca em minhas mãos, e a cravei no peito de Ricardo, que não teve tempo de esboçar nenhuma reação, a não ser a de aceitar aquela lâmina que penetrava sua carne. As lágrimas reapareceram no meu rosto, e eu não conseguia definir o que eram: alívio ou dor, sofrimento ou esperança.
Não quis ficar ali por mais nenhum minuto e recorri à janela. Completamente perdida no meio da rua, eu não sabia o que fazer primeiro. Ia pra casa, à delegacia, ao hospital? O que seria mais prudente? Fui então pra casa, depois de ir até a esquina e pegar um taxi.
...
De repente, acordei com o meu próprio grito aterrorizante. No susto, abri meus olhos, sufocando... Um pesadelo tremendo havia tomado conta das minhas noites. Olhei para um lado e para o outro, não entendendo o que havia acontecido. A febre ainda não tinha abaixado, mas nem o psiquiatra, nem minha mãe estavam no quarto. E eu estava exatamente como sempre estive, na minha plena saúde. Eu estava em casa, e na minha mão, o celular. Completamente confusa tentei tomar conta dos meus ímpetos, respirar fundo e tentar ser um pouco mais racional. E então, a minha surpresa maior, Ricardo acendeu a luz do abajour de sua cabeceira, se levantou e me disse carinhosamente: Meu amor, não tenha medo... Foi só um pesadelo. Agora vamos dormir, porque amanhã nós dois acordamos cedo, para trabalhar.
Deitei novamente, mas ainda muito perturbada com tudo o que eu tinha sonhado naquela noite. Será que eu estava ficando louca? Achei melhor no dia seguinte procurar algum médico especialista, um psicólogo ou psiquiatra, pois tinha a certeza de que depois daquela noite longa de pesadelo e insônia, eu com certeza teria medo de sonhar de novo.
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