As palavras de Ricardo chocavam contra as paredes do meu cérebro como um mar de ressaca bate nas pedras. Fiquei com a mente no modo “off” por alguns instantes, completamente perdida em minha confusão mental. Eu não fazia a menor idéia do que responder ali, e inevitavelmente, a única resposta que saia era um vago balançar de cabeça, afirmativo, ainda olhando para baixo.
Ao me voltar para ele, via que seu semblante mostrava uma satisfação que se tornava até um pouco sombria. Aquilo só fez aumentar o meu desespero, quando dei por mim, o que eu estava fazendo, e como tinha sido a reação dele. Será que eu estava fazendo o certo? Nossa, me surpreendi em ver que eu ainda conseguia raciocinar por mim mesma, enquanto o meu corpo não correspondia aos impulsos racionais da minha consciência.
Ricardo se aproximou e me abraçou, e aquilo era estranhamente reconfortante para mim, ao mesmo tempo em que repulsivo. Não estava entendendo absolutamente nada, estava muito confusa, e precisava ir embora, sair dali. Comentei com Ricardo que eu não estava bem, e ele propôs me levar pra casa.
No caminho, um milhão de juras de amor, que soavam como um filme repetido, um deja-vu. Meu rosto mostrava um contentamento que contrastava com o pouco da sanidade presente. Eu era triste e feliz, feliz e triste, ao mesmo tempo. Mas o que estava feito não tinha mais volta. Todo mundo diz que perdoar é humano, e eu estava apenas atingindo esses parâmetros. Pensar dessa forma me fazia sentir menos culpada.
Ao chegar em casa, minha mãe se surpreendeu e me ver ao lado de Ricardo, novamente tão íntima, e isso causou um calafrio sinistro nela. Presumo que ela estivesse pensando o mesmo que eu. As lembranças dos últimos tempos, e toda a fase ruim que se devam em relação ao término e a ele ainda queimavam na memória, como brasa de carvão de fim de fogueira. Mas como sempre, ela me deixou por minhas próprias decisões, e não interferiu em nada.
...
As semanas foram se passando, e aminha vida parecia estabilizada novamente. Tenho que admitir que passar essas semanas ao lado de Ricardo me fizeram muito bem. Em questão de tempo, as brasas que ardiam na mente foram se extinguindo, e a confiança foi restabelecida.
Tudo caminhava perfeitamente bem, e isso causava certa desconfiança em todos. É claro que agora, eu não me deixava mais anular pelas vontades de Ricardo, ou pelo simples fato de eu achar que estava respeitando o espaço dele, mas todas as mulheres gostam mesmo é de ser iludidas. Óbvio que seria ingenuidade demais da minha parte achar que uma retomada modificaria tudo, apagaria o passado, como se nada daquilo tivesse acontecido, mas... Eu cheguei a acreditar nisso.
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Ricardo brincava com a minha mente, manipulava, induzia, jogava comigo como se eu fosse um peão de xadrez. Mas nada daquilo era visionado por uma garota boba de classe média, apaixonada. Mais uma vez eu me deixei levar, e mais uma vez eu cai nas armadilhas das palavras sedutoras dele. Mais uma vez, ele me tinha nas mãos para fazer o que quisesse. Eu tinha me apaixonado duas vezes pela mesma pessoa, e nem achei que eu fosse capaz de fazer isso.
As flores e as serenatas particulares, o poder de sedução, todas essas pequenas coisas que fazem a diferença voltaram a ser freqüentes no primeiro mês juntos “de novo”. E como de costume, enquanto isso existe, o sentimento só cresce, assim como se aduba uma planta. Essa calmaria e o mar de rosas reinaram durante um tempo razoável. Mais do que eu, inconscientemente, julgava. Durante seis meses eu acreditei que sim, poderia ser feliz ao lado dele de novo, como realmente fui. Mas, como todo começo tem um fim... Um novo inferno particular teve início. Dessa vez, não pelos meus ciúmes os cismas, mas pelas coisas da parte dele.
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