Não conseguia entender ou acreditar no que estava acontecendo ali. Aquela cena era completamente bizarra! Como uma coisa que aconteceu em pouco tempo poderia apagar da memória de alguém, daquela forma? Não sabia até onde as palavras de Ricardo me soavam como verdade ou mentira. E analisava minuciosamente cada sinal de expressão que pudesse responder a minha dúvida. Porém, nada.
Tudo era muito vazio. Tudo era nada. A minha angústia aumentava cada vez mais. Sabia que eu não estava em meu estado natural, e tinha medo de como a panela iria transbordar. Ponderava cada reação que eu pudesse ter. Toda a minha confusão estava mesclada ao medo, e qualquer coisa que eu pudesse fazer me remetia às cenas de agressão do dia anterior... E se ele pirasse de novo? E se fosse pior. Mas eu não poderia me omitir, eu não poderia me deixar levar por toda aquela coação, indução, ou sei lá o que era aquilo.
Meus pensamentos foram interrompidos por um rompante de choro. O que estava acontecendo? Será que não era eu a louca da relação, mas sim ele? Não havia ponderado essa opção antes.
Ricardo chorava compulsivamente. Me lembrava um bebê chorando de fome. Soluçava, desesperava, tentava se esconder, para não passar pela situação constrangedora de admitir uma possível fraqueza, que homem também chora. Ele me pedia desculpas, me tocava, me abraçava tentando esconder o rosto por detrás dos meus ombros. Eu perguntei o que estava acontecendo, se ele estava com problemas externos, se estava acontecendo alguma coisa que eu não soubesse, e ele não respondia. Apenas chorava e chorava, e pedia desculpas.
Atinei para a hipótese de realmente estar acontecendo alguma coisa. Uma coisa que eu havia aprendido era que homem, quando está se desculpando muito, quando mudava seu comportamento, era porque realmente estava acontecendo alguma coisa. Atentei para a possibilidade de traição. Mas fiquei na minha. Continuei perguntando o que estava acontecendo, e fui surpreendida mais uma vez.
Ricardo começou a gritar, desesperadamente, praguejando o vento, perguntando para mim o que eu queria dele, se eu não conseguia enxergar. Enxergar o que? A loucura dele? É, eu estava percebendo... Mas a minha expressão causou uma crise de fúria nele, e de repente um tapa ardeu na minha face, e o gosto de sangue repercurtiu em minha boca.
...
Cerrei meus olhos e me juntei ao sofá. "Hein, tá me olhando assim por quê?" Era o que eu conseguia distinguir dentro da dor. Ricardo me pegou e me chacoalhou como se eu fosse um boneco de pano. Me chamava de louca, de puta, retardada. Brilhava em seus olhos algo que eu não sabia explicar. Eu tentava me debater, mas não sabia de onde saia aquela força dele, que me apertava tão fortemente, e não me dava espaço para me desvencilhar. Eu pedia para ele parar, mas ali, com aquele olhar, eu sabia que não era ele no seu estado normal.
"O que é? Fica me olhando assim com essa cara... Tá imaginando que eu ou louco né? Mal sabe que a louca aqui é você... Vamos relembrar os fatos: Quem ficou sem vida social? Onde você estava nos últimos mêses? Quem é você sem mim?"
As minhas forças tinham acabado, e eu não esboçava mais reação corporal. A única válvula de escape eram as lágrimas. Então, facilmente Ricardo me colocou numa das cadeiras do conjunto da mesa de jantar e me mandou ficar. Me ameaçou de morte se eu me movesse mais do que a respiração me permitia. E com o medo tomando conta de mim, além das forças perdidas, eu não tinha outras opção além de obedecer.
Ricardo sumiu em um dos cômodos da casa rapidamente e retornou mais rápido ainda, com uma corda. Me amarrou naquela cadeira e eu já não me importava com as coisas que estavam acontecendo, só queria sumir dali, desejava nunca ter pensado em aparecer na casa dele, naquele dia.
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