Uma questão era verdade: Ricardo não sabia usar as palavras, quando constrangido. Muito embora essa fosse uma situação nada comum, foram raras as vezes em que me deparei com o Ricardo sem jeito, tentando medir as palavras. Essa foi uma dessas situações. Ele se perdia entre pedidos de desculpas e confissões, entre assumir os erros e culpar a mim ou a alguém. E eu resolvi intervir.
- Primeiramente, Ricardo: você definitivamente precisa controlar seus sentimentos adversos. Eu entendi o que você quis dizer, ou acho que entendi, Mas para um ser humano normal, isso não seria possível. Segundo, até aqui, você apenas se tornou uma pessoa prolixa. Você roda, roda, e acaba sempre no ponto de partida. Seja mais simples e direto, que quanto menos tempo a gente perder, mais rápido a gente resolve esse assunto!
Ele ficou meio assustado, quando o interrompi com essa profusão de palavras que ao mesmo tempo agressivas, eram aflitas para saber o que estava por vir. Mas ele ponderou sobre o que eu disse e viu que delongas não levariam a nada.
Um gole a mais de suco, para tentar aliviar a tensão, Passou a mão na testa para enxugar o suor frio que brotava dos poros sem calor. É, até eu estava começando a ficar tão tensa quanto ele, e ainda assim, eu não sabia o que era, embora eu começasse a desconfiar do enredo. E por fim, ele começou a falar.
Ricardo me explicava que no começo não entendeu os meus motivos para ter terminado o relacionamento. Achava que eu tinha ficado obsessiva com meus ciúmes doentios, e que tudo era coisa da minha cabeça. Porém, analisando com calma todas as coisas, dizia ser ele o errado e que não tinha percebido. “Por isso, queria te pedir perdão, e uma segunda chance!”.
Aquelas palavras causaram uma estranha sensação de contentamento e um frio no estômago que chegou a gelar a minha espinha. Tive que controlar as minhas expressões faciais para não demonstrar nem susto, nem alegria, nem o que quer que eu estivesse sentindo... Na verdade, eu não queria sentir. Eu queria simplesmente ser imparcial à opinião dele. Mas não consegui muito sucesso... A confusão expressa fez com que Ricardo me olhasse de uma forma estranha, tão ou mais confusa quanto eu.
Acompanhando a turbulência sentimental, eu fiquei sem palavras para dizer alguma coisa em resposta a pergunta dele. Ricardo me olhava fixamente, como que esperando alguma reação.
- Uma segunda chance é muito vago...
- Você entendeu o que eu quis dizer com segunda chance!
- É, entendi, mas o que você quer de mim? Quer me deixar maluca?
- Poxa, Jessi! Não faz isso... Eu apenas errei sem perceber, e quando me dei conta, era tarde demais. Só que ainda assim, eu quis arriscar. Por favor?
...
Nenhum comentário:
Postar um comentário