Nos olhos, a mesma expressão fria, como de todas as outras vezes... Ela se prepara na frente do espelho, para mais uma peça teatral, vivida na vida real. Começa a treinar algumas caretas, e pronto! Assim será bastante convincente - pensa.
Vestida em um tubinho carmim, fazendo jogo com a bolsa de festa, o salto agulha com detalhes dourados tilintam pela rua, com os passos curtos, porém ágeis. Suas passadas vão aumentando, aumentando, até chegar perto de uma corrida em marcha atlética. Ela sente que um corpo maior que ela se aproxima; mas isso era exatamente o que ela queria.
Embora seus movimentos encenassem um pânico, aquela frigidez no olhar permanecia. Aqueles olhos negros não manifestavam nenhum sentimento de pavor; não brilhavam. Simplesmente faziam parte do jogo de imagens do belo rosto de Dora.
Era incontrolável. Dora já havia planejado minuciosamente os passos que daria naquela noite de sexta-feira. Tinha mecanicamente articulado cada rua que visitaria, para, assim, atrair sua vítima. Ela iria atacar, não havia dúvidas, e Dira não tinha poderes sobre as ações de sua aliada. Dirá sabia que não era a primeira vez, e que talvez não fosse a última. Ela queria parar, mas Dora usava sua falta de sentimentos para persuadi-la mentalmente.
Os passos atrás de Dora ficavam cada vez mais nítidos aos seus ouvidos. Ela se deliciava interiormente com a expectativa da chegada do grande momento, da hora do ataque. Dirá, no entanto, se desesperava, e queria sair dali, mas Dora a segurava.
Finalmente, a voz grave soou da sombra que se projetava por detrás de Dora, e neste instante, um dos raros momentos de emoção refletiu em seus olhos: uma faísca flamejante, quase infernal, brotava na escuridão da viela, e era sim, os dos olhos de Dora. Ao ser abordada, na passarela que se estendia de um lado da linha ferroviária ao outro, ela deu um leve sorriso de canto de boca, e uma parte das pérolas brancas guardadas por seus lábios surgiu, sem ser percebida pelo rapaz.
Na estupidez de movimentos, o rapaz não fazia a mínima idéia que aquilo era totalmente planejado, uma mentira grotesca, como um teatro de fantoches. Ainda assim, Dora tentava insistentemente convencer-se de que era boa atriz, e que convencia todo um público. O homem estava ansioso, Tentava agarrá-la de todas as formas, tentando controlar seus movimentos rápidos, preocupados em se debater velozmente. Ele usou da força, travando-lhe as pernas e a colocando de costas para ele... Aquela posição o excitava ainda mais, e ele não quis perder tempo com roupas, rasgando o vestido para abrir caminho até onde seu desejo pudesse ser saciado.
E Dora deixou que seu corpo fosse usado daquela forma, ali, naquele local, numa passarela, para que seu plano pudesse ser totalmente concluído. Para isso, ela precisaria de provas, e nada melhor que algumas escoriações e hematomas, ou suas intimidades violentamente exploradas. Dirá gritou, e Dora gemeu, urrou; e novamente a chama sinistra habitou seus olhos.
Num jogo de cintura difícil de ser compreendido, Dora se desvencilhou da armadilha criada por aquele homem da noite, que mal sabia seu destino. Aproveitando se da altura, e da grade frágil e mal conservada, ela finge que se desequilibra e puxa o rapaz, o empurrando em seguida, a queda, em si, não o matou, mas logo em seguida veio um trem, para terminar o serviço e colaborar para sua trágica morte na linha férrea.
Dora dominava completamente a situação e Dirá não teve oportunidade de expressar seus sentimentos, seu desespero, seu ódio por tudo aquilo estar acontecendo mais uma vez. Mas Dora pouco se importava, estava radiante, com um grande sorriso no rosto, vangloriando-se de mais uma vitória, para o mundo. Mas seu teatro mambembe tinha que terminar.
Avaliou as avarias causadas, provocou mais algumas, complementares, apenas; modificou suas feições para o mais alto grau de dor e angústia. Ela irá até a delegacia, contar história de contos de fadas e blá blá blás, convencerá o delegado que foi em legítima defesa, e sairá, mais uma vez, ilesa, do seu grande teatro. E se regozijará no deleite de mais um crime concluído, mais um desejo de morte saciado, mais uma vítima culpada eliminada.
Agora posso ver a crueldade de Dora refletida em seus olhos novamente; eles permanecerão frígidos e opacos até que sua próxima vítima cruze seu caminho. Até lá, Dira retomará o controle de seu corpo, convivendo com aquele ser desprezível dentro de si.
Não sei o porque, mas teve gente com medo de mim, depois que leu esse texto!!! Haahahaa... Ainda bem que consegui mexer com os brios dos leitores... Essa era a intenção! ;P
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