A minha garganta estava seca… dei uma golada de ar e, por conseguinte, consegui lubrificar com saliva o duto digestivo/respiratório. Ouvia vozes no fim do corredor, que eu até então não conseguia identificar ao certo. E então, tentei abrir meus olhos... A visão turva que me consumia a íris foi aos poucos se dissolvendo, e então pude ver o rosto que me observava atentamente, logo ao lado.
- Tereza, ela acordou!
- Vamos, vamos, ela acordou, exclamava a minha mãe, pelos corredores da casa.
- Ricardo, eu falei pra você que eu não queria você aqui... O que você quer???
- Calma, Jessi, eu vi aqui pra conversar com você... É que na verdade eu sinto a sua falta e, bem... Eu não fiquei mesmo sabendo das suas atuais condições, achei que você simplesmente tinha sumido por não querer mais me ver, e não porque estava... Assim!
-Assim como? (Eu escondia em minhas perguntas e agressividade a satisfação que eu sentia em vê-lo ali, do meu lado e preocupado comigo)
- Assim tão abatida, tão... Diferente!
- Se você veio aqui pra ser simpático, pode dando meia volta e sair daqui, por favor!
- Não vou sair daqui hoje sem conversar com você...
- Ai, minha filha... Não me dê mais um susto desses!!! Você está se sentindo bem? – Ricardo... me desculpe, meu filho, mas acho melhor você voltar outra hora.
Naquele momento olhei triunfante para o rosto preocupado de Ricardo. Não sei realmente o que ele procurava tentando conversar comigo. Já disse que não queria mais nada com ele, e por mais que a dor da perda fosse grande, não justificava uma recaída. Mas tenho que admitir que o contato com ele me fez ficar um pouco mais viva, um pouco menos inerte e imersa naquele submundo escuro em que me enfiei e não queria mais sair. E a melhora foi gradativamente visível.
...
Todas as memórias que borbulhavam em minha mente estavam me matando pouco a pouco. Parte de mim procurava reagir e salvar o pouco de sanidade que me restava depois de tudo o que passei em alguns anos anteriores. Ao mesmo tempo, eu era insuportável e constantemente sugada ao buraco negro que há tanto tempo havia sido controlado. A cada sono mal dormido, me via mais parecida com o ser estranhamente obsceno e repugnante que conheci em mim mesma. Nunca pensei que uma pessoa comum pudesse se tornar alguém tão insignificante e desprezível ao mesmo tempo.
Além disso, cada vez que o sono batia, tinha mais medo de sonhar de novo. Os meus sonhos nada mais eram do que uma reprise bem feita dos pesadelos mais escabrosos que um dia eu tive. Pesadelos esses que refletiam uma realidade constante, até meu tratamento psiquiátrico. Bom, até aqui pelo menos.
...
- Ricardo, sou eu!
- Oi Jessi, já está melhor?
-Muito melhor do que você, pode ter certeza!
- Então, já podemos conversar?
- Se não pudesse, eu não estaria ligando...
- Ok, trator! Quando eu posso te ver?
- Não precisa! Estou na frente da sua casa!
...
- Que bom te ver, Jessi! Ainda bem que você está melhor...
- Bom, não posso dizer a mesma coisa, quanto a te ver, mas... Sabe como é? A curiosidade feminina é um problema sério.
- Eh... hum... Bom, entre... Fiquei à vontade!
- Nossa! Estou vendo que muitas mudanças aconteceram por aqui... Espere aí... Mudanças essas que eu te sugeri há um tempo.
- Pois é... Isso é uma parte do que eu gostaria de ter conversando com você, quando a senhorita quase me expulsou da sua casa, mesmo que... Desculpe! Não queria tocar no assunto.
- Não por isso... Pois bem, não se bebe nada nessa casa?
- Desculpe! Quer alguma coisa?
- Whisky... O melhor que você tiver aí...
- ...
- Hahahaha.... Brincadeira, eu não posso beber, lembra? Remédios controlados!!! (Essa era realmente uma brincadeira desnecessária naquele momento, mas eu quis quebrar o gelo, e na verdade, qualquer clima que pudesse pintar, por estarem ali, os dois sozinhos).
- Han... Ok, um suco, talvez?
- Ok... Um suco!
Dali por diante, eu comecei a me perguntar o que eu estava fazendo? Agi por um impulso incontrolável da minha curiosidade insana, mesmo que ainda não estivesse muito bem. Mas agora, meio caminho tomado não me permitia voltar atrás. E já que um ato impensado havia me levado até ali, melhor dar cabo de todo o processo, sendo fiel aos propósitos iniciais: saber o que o Ricardo queria naquele último dia de crise.
Depois de gentilmente me servir, percebi que um brilho diferente penetrava os olhos de Ricardo. Ainda não conseguia entender claramente o que aquilo significava. Saberia mais adiante.
Sentamos no sofá bege encardido da sala um pouco mais harmoniosa do que a minha antiga visão dos aposentos de Ricardo. Ele me questionou sobre se eu havia gostado das mudanças feitas, e eu concordei levemente com a cabeça. Ainda um pouco constrangida com toda aquela situação, continuava me indagando internamente o que eu estava fazendo ali, e por conta dos pensamentos a minha timidez foi tomando conta de mim. Me vi como uma criança boba que não tem argumentos para conquistar aquele pirulito que o pai tomou.
Finalmente, ele puxou assunto e perguntou diretamente o que eu estava fazendo. Não entendi com que intenção aquela pergunta havia sido feita, inicialmente, e fiz uma cara engraçada e curiosa ao mesmo tempo. A minha reação provocou um leve riso no canto da boca de Ricardo, que refez a pergunta com mais objetividade. A única coisa que saiu da minha boca naquele momento foi “Vim saber o que você quer me falar, vim para te ouvir”.
...
ELOÁ,
ResponderExcluirDEZ, NOTA DEZ, COM LOUVOR.
VOU PROCURAR OS OUTROS CAPÍTULOS.
PARABÉNS!!!
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Oi, Paulo!!! Muitíssimo obrigada pelo comentário!!! Fico feliz que tenha gostado!
ResponderExcluirProfissional, nem tanto, são só esboços... Rascunhos... Um dia eu melhoro isso, sabe como é um conto em construção! rs
E pode deixar que vou averiguar seu blog...
Beijos Carioca!!! rs