Começava a ficar tarde, quando anunciei que deveria voltar para casa, para estudar algumas matérias específicas do curso da faculdade. Ele, então, me ofereceu carona, e eu relutei por alguns instantes... Mas pensei melhor! Vi que em condições muito piores, no dia da festa da faculdade, ele teria toda a oportunidade de ser abusivo, e não foi. E não havia mais motivos para falso moralismo. Além disso, uma carona era muito bem vinda, até pela economia, afinal de contas, estudantes nunca têm dinheiro para nada.
Outro bom motivo para que eu aceitasse a carona era o fato de eu poder prolongar um pouco mais todo aquele deleite de prestar atenção em cada palavra pronunciada por aquele rapaz. Não havia motivo específico, mas o modo de falar de Ricardo tinha um completo magnetismo, e prendia completamente a minha atenção.
E assim aconteceu, fomos até a garagem do shopping, e ele pediu que eu esperasse até que ele quitasse o estacionamento. Depois nos direcionamos ao Gol bolinha prata, muito simples para quem via de fora, mas muito confortável e bem equipado por dentro. Ele sugeriu que eu ligasse o rádio, para me distrair, mas confesso que aquela não era a minha intenção; eu queria continuar emergida no fascínio que desenvolvi por ele.
Além disso, parte de mim estava um tanto angustiada. Toda aquela cerimônia me confundia sobre as intenções daquele rapaz. Em condições normais, qualquer um já teria avançado o sinal há muito tempo, e no entanto, ele continuava a me respeitar. Já não sabia se ele estava simplesmente interessado na minha amizade ou em algo mais. Pensei então se o certo seria que eu tomasse a atitude, mas aquilo não seria eu, nunca foi do meu feitio ser “avançadinha”. Resolvi esperar.
Liguei o som, e fui selecionar a estação de rádio... Nada prestava, e o sinal pelas bandas da faculdade era péssimo. Perguntei então por CDs, de preferência MPB, e ele, não para minha surpresa, me apresentou um deck abarrotado de preciosidades. Escolhi então, um cantor não muito usual, embora conhecido. E ele se encucou: “Nossa, você conhece isso? Achei que fosse só eu”. Respondi então que boa parte da minha herança cultural eu devia ao bom gosto da minha família, e que João Gilberto me remetia a minha mãe, e matava um pouco as saudades.
Cantarolei um pouco de “Desafinado” e ele deu um risinho escondido. Fiquei constrangida e ele olhou de rabo de olho. Perguntou então o porquê de eu ter parado de cantar, e eu disse que eu estava me identificando muito com o título da música, e o riso então não foi nada comedido. E rimos os dois.
Pensei em tudo estar perfeito demais até ali. Nunca havia passado por uma situação daquela, em que a companhia me fizesse tão bem. Fui sentindo com os meus sentidos, incluindo o sexto, que aquilo com certeza seria muito mais, pelo menos para mim; e me assustei com a proporção do sentimento, mesmo com tão poucos encontros.
...
Agora eu estava saindo do meu estado de letargia, dentro do Box do banheiro. Inundado pelo vapor da água quente que caia do chuveiro, não apenas o blindex, mas os espelhos e todos os vidros do local estavam tão embaçados quanto a minha mente. Peguei a minha toalha e me enxuguei, enrolando-a em meu colo assim que retirei o excesso de água. Fui até o meu quarto ainda com os olhos marejados, perturbados com as lembranças recentes. Todo aquele turbilhão de sentimentos me confundia, embaralhava toda a minha mente, e me trazia sentimentos que eu não queria voltar a sentir.
Comecei a chorar compulsivamente, e fui mexer então, em uma caixinha de lembranças, que havia abandonado há tempos. Lá, encontrei o CD de João Gilberto que eu havia ganhado em algum dia do passado. Já nem conseguia me recordar direito de todas as coisas que eu havia vivido, e aquelas lembranças vieram tão forte... As lágrimas ainda escorriam forte pelo meu rosto, e os soluços vieram acompanhar. Me desesperei quando percebi que um princípio de crise nervosa se aproximava, e o meu CD caiu no chão. Estática, juntei minhas poucas forças que consegui encontrar em mim, para correr até a frasqueira de remédios. Eu õ queria só meu antidepressivo, mas o remédio mais forte que eu encontrasse para me fazer dormir.
No desespero, tomei quatro comprimidos de Pramil, e a combinação foi bombástica. Não consegui chegar à cama, e cai, dopada, no chão da porta do quarto.
...
Seria o medo de sonha uma Octologia!!!!?????
ResponderExcluirAinda não acabou, Francis... Só que estou um pouco sem tempo de continuar...
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