Em um dia comum, com pessoas comuns, humores comuns... Um dia em que fui matar as saudades do Centro (caótico) da Cidade, enquanto tornava à minha terra longínqua, sentada ao lado de uma senhora (não tão senhora) bem roliça e corpulenta, que fazia com que eu tivesse que me espremer entre o espaço que me sobrava do assento e o braço protetor do banco alto daquele ônibus, despi-me de todos os pudores e valores adquiridos com a vida da sociedade moderna que levo, para dar licença e lugar a um sentimento que há muito não me acometia: a inveja!
Mas não era aquela tal inveja intransferível e particular das bruxas de historinhas infantis, que traja o negro e porta as máscaras habitantes dos meus pesadelos de um passado distante. Não, essa vinha montada em um cavalo branco, recitando à mim mesma as minhas próprias poesias manuscritas à próprio punho e caneta bic, outrora.
A inveja, doce e delicada, tratava-me pelo olhar puro e sereno, ganhava-me pelo compartilhamento de cabelos brancos e o cúmplice acariciar no suave toque das mãos pintadas por sardas adquiridas com o tempo, e enrugadinhas, cheias de artrites, artroses e afins... de um casal sentado do outro lado do corredor, bem rente ao meu banco.
Aquele admirável casal de anciãos deveria ter de idade o que os meus avós teriam, se ainda estivessem no plano terreno. E aquela ternura jorrante que brotava do namoro dos dois me fez começar a pensar um pouco sobre a minha vida, e se aquele tipo de comportamento e sentimento não foram feitos para o meu deleite.
Sim, o sentimento me pegou de jeito! Os olhos e o peito ardiam como inflamados por uma cólera que não cabia em mim. Mas... Por que eu deveria nutrir essa raiva? E ai, descobri que não era uma cólera, ira... RAIVA! Era a inveja. Era o desejo de ter aquilo para mim, como imaginei algumas vezes, na minha infância.
Ok, nunca foi um ponto em objetivo crescer e envelhecer ao lado de alguém. Fui criada para ser a mulher do futuro: independente, que se sustenta e (quase) auto suficiente! E a vida foi me mostrando que certos desejos de menina são um tanto quanto supérfluos, visto a maneira que vivemos. Mas saber que aquele "romance antigo" ainda existe, que é possível... Mexeu com os meus brios de mulher moderna, mesclados aos meus desejos de menina!
Poderei, pensei... Admirei o quanto pude aquele belo casal em tonalidades prateadas dos cabelos brancos. Fiz questão de promover aos céus um "benza Deus", para que a minha inveja, ainda que branca, não se tornasse uma erva daninha.
E, por fim, os velhinhos namoradores desceram do ônibus, em um local que pouco me recordo... E com eles, desceu também a minha fantasia de amor de novela, de compor a minha vida com um alguém ao longo dos anos, que poucos têm a sorte de nutrir.
Sem querer ser o charo da vez... sabe-se lá se o casal nào se conheceu há pouco tempo? Esse nosso ideal de relacionamento é beeem fruto da nossa cultura e talvez seja mais contemporâneo do que pensamos, afinal, até bem pouco tempo atrás, a mulher mal tinha o direito de escolher com quem ficar... e amar então? Aprende-se! Enfim, não existem modelos prontos de felicidade. Não sei nem mesmo se a felicidade é algo que devamos buscar... receio que nào.
ResponderExcluirÀ parte isso, que belo texto hein menina!? Escreves bem! Sabe selecionar as palavras e desenhar com elas sensações e sentimentos. ADOREI!!
Prometo que volto! ;)
Beijo
Eu quis dizer o "chato"
ResponderExcluirComo eu disse, a inveja foi fruto das minhas fantasias de menina... :/
ResponderExcluirMesmo não tendo compartilhado o momento com você, minha querida ruiva, compartilho o sentimento.
ResponderExcluirMas ai que inveja!
Esses velhinhos... que danados!
Hahahahaha... Aleixa, você é a melhor!!!
ResponderExcluir"Que danados"