quinta-feira, 16 de junho de 2011

Minha esperança desceu do ônibus hoje!

Em um dia comum, com pessoas comuns, humores comuns... Um dia em que fui matar as saudades do Centro (caótico) da Cidade, enquanto tornava à minha terra longínqua, sentada ao lado de uma senhora (não tão senhora) bem roliça e corpulenta, que fazia com que eu tivesse que me espremer entre o espaço que me sobrava do assento e o braço protetor do banco alto daquele ônibus, despi-me de todos os pudores e valores adquiridos com a vida da sociedade moderna que levo, para dar licença e lugar a um sentimento que há muito não me acometia: a inveja!

Mas não era aquela tal inveja intransferível e particular das bruxas de historinhas infantis, que traja o negro e porta as máscaras habitantes dos meus pesadelos de um passado distante. Não, essa vinha montada em um cavalo branco, recitando à mim mesma as minhas próprias poesias manuscritas à próprio punho e caneta bic, outrora.

A inveja, doce e delicada, tratava-me pelo olhar puro e sereno, ganhava-me pelo compartilhamento de cabelos brancos e o cúmplice acariciar no suave toque das mãos pintadas por sardas adquiridas com o tempo, e enrugadinhas, cheias de artrites, artroses e afins... de um casal sentado do outro lado do corredor, bem rente ao meu banco.

Aquele admirável casal de anciãos deveria ter de idade o que os meus avós teriam, se ainda estivessem no plano terreno. E aquela ternura jorrante que brotava do namoro dos dois me fez começar a pensar um pouco sobre a minha vida, e se aquele tipo de comportamento e sentimento não foram feitos para o meu deleite.

Sim, o sentimento me pegou de jeito! Os olhos e o peito ardiam como inflamados por uma cólera que não cabia em mim. Mas... Por que eu deveria nutrir essa raiva? E ai, descobri que não era uma cólera, ira... RAIVA! Era a inveja. Era o desejo de ter aquilo para mim, como imaginei algumas vezes, na minha infância.

Ok, nunca foi um ponto em objetivo crescer e envelhecer ao lado de alguém. Fui criada para ser a mulher do futuro: independente, que se sustenta e (quase) auto suficiente! E a vida foi me mostrando que certos desejos de menina são um tanto quanto supérfluos, visto a maneira que vivemos. Mas saber que aquele "romance antigo" ainda existe, que é possível... Mexeu com os meus brios de mulher moderna, mesclados aos meus desejos de menina!

Poderei, pensei... Admirei o quanto pude aquele belo casal em tonalidades prateadas dos cabelos brancos. Fiz questão de promover aos céus um "benza Deus", para que a minha inveja, ainda que branca, não se tornasse uma erva daninha.

E, por fim, os velhinhos namoradores desceram do ônibus, em um local que pouco me recordo... E com eles, desceu também a minha fantasia de amor de novela, de compor a minha vida com um alguém ao longo dos anos, que poucos têm a sorte de nutrir.

5 comentários:

  1. Sem querer ser o charo da vez... sabe-se lá se o casal nào se conheceu há pouco tempo? Esse nosso ideal de relacionamento é beeem fruto da nossa cultura e talvez seja mais contemporâneo do que pensamos, afinal, até bem pouco tempo atrás, a mulher mal tinha o direito de escolher com quem ficar... e amar então? Aprende-se! Enfim, não existem modelos prontos de felicidade. Não sei nem mesmo se a felicidade é algo que devamos buscar... receio que nào.

    À parte isso, que belo texto hein menina!? Escreves bem! Sabe selecionar as palavras e desenhar com elas sensações e sentimentos. ADOREI!!

    Prometo que volto! ;)

    Beijo

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  2. Como eu disse, a inveja foi fruto das minhas fantasias de menina... :/

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  3. Mesmo não tendo compartilhado o momento com você, minha querida ruiva, compartilho o sentimento.
    Mas ai que inveja!
    Esses velhinhos... que danados!

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  4. Hahahahaha... Aleixa, você é a melhor!!!
    "Que danados"

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